Tico e Teco

“Vejo que Ele está bastante cansado. Ele está fazendo exercício físico?”, disse Tico.

“Coloquei-o para correr um pouco porque Ele estava precisando.”, respondeu Teco.

“E por que Ele está deprimido? Que música é essa que Ele está ouvindo? É Réquiem Mass, do Mozart?”

“É. Ele gosta muito dessa música.” respondeu Teco.

“Mas é música de funeral! Faça-O mudar de música se não o Coitado vai ter uma crise de depressão.”, ordenou Tico.

“Ora Tico, não me venha dando ordens sobre tarefas que são de minha responsabilidade. Você mesmo sempre me lembra que as tarefas cognitivas são de sua responsabilidade e as metabólicas e emocionais são minhas.”

“Eu sei, desculpe-me. É que ando um pouco cansado e estressado com esse nosso trabalho. Não é fácil ficar escondendo Dele, o tempo todo, esse segredo.”, disse Tico em tom conciliador, e continuou:

“Sabe, ultimamente temos cometido algumas falhas e isso O tem deixado confuso.”

“Que falhas?”, perguntou Teco, com a sua costumeira ingenuidade?

“Você sabe qual é a nossa regra de ouro para manter o segredo, mas vou repeti-la pois não custa nada (e, também, para o leitor entender). Sempre que Ele toma alguma decisão, essa ação tem que ser antecedida por uma vontade de tomar aquela ação. Isso para que Ele pense que a ação foi tomada por Sua livre e espontânea vontade; para que Ele pense que tem livre-arbítrio. Certo?”

“Certo, e daí?”, respondeu Teco.

“Tem acontecido algumas vezes que nós O induzimos a tomar uma decisão sem antes fazê-Lo desejar aquilo. Hoje, por exemplo, Ele foi enviado por você até a cozinha para tomar um copo de água e, chegando lá, Ele não sabia o que tinha ido fazer na cozinha.”, disse Tico em tom repreensivo.

“Sim, eu me esqueci de induzir nele a vontade de beber o copo de água. Mea-culpa! Mas foi um errinho pequeno que não causou nenhum risco de que o segredo viesse a ser revelado.”, disse Teco, um pouco envergonhado, mas com ar sincero. Aproveitando o ensejo, ele emendou:

“Mas você também tem feito ele tomar decisões inteligentes sem seguir uma lógica. Lembre-se da compra do Seu último carro. Ele comprou um carro à gasolina e não um elétrico achando que foi por pura intuição e não porque o preço da gasolina iria baixar e o da eletricidade subir, como você deveria tê-Lo induzido a pensar.”, disse Teco, vangloriando-se pelo esquecimento do parceiro.

“Se Ele pensou que foi por intuição, então o segredo não foi colocado em risco.”, disse Tico, procurando uma justificativa para o seu erro.

“É, você está sempre certo e se acha mais importante do que eu.”, disse Teco, magoado.

“Não é assim, Teco. Você sabe que é mais importante do que eu. Senão vejamos: se nós dois morrermos, o que acontece com Ele?”, perguntou Tico.

“Ele morre também.”, respondeu rapidamente Teco.

“E se apenas eu morrer, o que acontece com Ele?”

“Fica em estado inconsciente, mas vivo.”, disse Teco, orgulhoso de saber a resposta na ponta da língua.

“E se apenas você morrer?”, finalizou Tico.

“Ele também morre?”, arriscou Teco.

“Claro que morre! Você cuida de todo o Seu metabolismo e sem você Ele não pode viver. Portanto, você é mais importante do que eu.”, disse Tico, e emendou:

“A verdade é que estamos envelhecendo e às vezes não conseguimos dar conta de nossas tarefas como antigamente. Nessa hora é mais importante que sejamos companheiros para lidar com essa situação.”, disse Tico, em tom de arrependimento.

“Concordo Tico.”, disse Teco e, tomando coragem, arriscou fazer ao seu parceiro a pergunta que muito lhe incomodava:

“Tico, você acha que também temos um Tico e Teco em nossas cabeças?”

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