Propriedades emergentes

Acho interessante como surgem as propriedades emergentes em um sistema, vivo ou inanimado. Parece que surgem num passe de mágica. São muitos os exemplos de propriedades emergentes na natureza, sendo o mais fascinante deles o da vida e, em seguida, o da consciência. Vou explicar com minhas palavras e minhas limitações de leigo em sistemas complexos o que entendo por propriedades emergentes.

Um sistema qualquer é constituído por partes menores. Quando ele apresenta uma propriedade que não pode ser observada nos seus elementos constituintes, diz-se que essa é uma propriedade emergente. Nesse caso, diz-se que o sistema é mais do que a soma de suas partes. Dito de outra maneira, não é possível identificar uma contribuição individual direta dos constituintes na propriedade emergente do sistema; são as relações e padrões de organização entre eles que geram a tal propriedade.

Voltando aos exemplos citados, a vida de uma célula de um organismo vivo não está presente nos ácidos nucleicos, aminoácidos, proteínas ou em qualquer outra substância que compõe a célula, mas, juntos, esses constituintes geram uma célula viva. Analogamente, os neurônios isoladamente não geram um pouco da nossa consciência, mas são as suas ações integradas que geram a consciência em nossas mentes.

Com coisas inanimadas essa emergência também pode acontecer. O estado líquido da água não é uma característica das moléculas de água, que isoladamente não têm um estado físico, mas do arranjo em que elas se organizam, em certas condições de temperatura e pressão, surge a água líquida. Com o estado sólido da água (gelo) ocorre a mesma coisa. Não é uma coisa interessante verificar a formação do gelo ou a liquefação da água? Não parecem mágica?

Resolvi falar sobre isto porque estou lendo o livro “A visão sistêmica da vida”, de Fritjof Capra e Pier Luigi Luisi, que exploram este assunto para apresentar as suas ideias sobre a vida vista como algo mais amplo do que aquilo que se observa nos organismos vivos. (Em breve publicarei uma resenha desse livro na seção Caco Recomenda.)

A dúvida que me ocorre é se o homem já construiu sistemas que apresentam propriedades emergentes, sem contar a reprodução em laboratório daqueles já presentes na natureza. Tome-se, por exemplo, um time de futebol, que é produto do homem. A qualidade do jogo de um time pode ser considerada uma propriedade emergente? Acho que não. Ainda que se use no futebol o jargão “futebol é conjunto”, a qualidade do jogo da equipe deriva da qualidade individual dos seus jogadores, contanto que eles desempenhem adequadamente o seu papel em prol do conjunto.

E nas artes, aparecem as propriedades emergentes? Uma pintura parece que ostenta essa característica porque olhada como um conjunto provoca uma sensação no observador que não seria provocada por nenhum dos traços individuais feitos pelo artista. O mesmo acontece com uma música, quando se compara o efeito do todo (a melodia) com o das notas musicais individuais. Todavia, nesses casos, a propriedade não emerge no sistema (quadro ou música) mas na mente do apreciador. A situação parece ser diferente e não sei se podemos dizer que a qualidade de uma obra de arte é uma propriedade emergente da obra. (Bem a propósito, a obra existiria na ausência de um apreciador?)

A despeito dessas dúvidas, é bem possível que o homem já tenha produzido, de sua própria autoria, algum sistema que apresente propriedades emergentes, mas essa, talvez, não seja uma questão importante. Mais importante é saber se o homem conseguirá entender e replicar os mecanismos que dão origem à vida e à consciência, que a natureza sabe fazer tão bem. Ninguém contesta que esse conhecimento trará grandes benefícios para a humanidade e não é por acaso que governos em todo o mundo financiam pesquisas nessa área. Mas será que alguém duvida que a motivação maior para essas pesquisas é a curiosidade do homem em entender esses mecanismos, até agora tão enigmáticos?

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