A árvore de Platão

Uma grande ideia é sempre uma coisa admirável, seja nas ciências, nas artes, no trabalho ou no dia-a-dia. Ela deixa incrédulas as pessoas que tomam contato com ela a ponto de fazê-las perguntar: De onde ele tirou isso? Como é possível ter uma ideia assim do nada? Onde essa ideia estava antes de ser revelada? Vagando no éter?

As grandes teorias científicas, as obras primas nas artes, as invenções tecnológicas, as receitas culinárias que dão água na boca, todas são derivadas de ideias que parecem ter surgido na cabeça de alguns privilegiados como uma benção. É admirável vê-las nascer como também o é ver nascer os bebês, os filhotes e os frutos nas árvores. Mas, no caso das ideias, é diferente pois trata-se de algo abstrato. Seu nascedouro está na mente das pessoas.

É claro que existe um processo por trás da geração de uma ideia, um encadeamento de pensamentos, catalisado por estímulos externos e memórias armazenadas, que acaba por gerar na mente do criador aquela ideia genial. Comumente chamamos esse processo de inspiração. A inspiração não surge do nada como num passe de mágica. Mas é como se surgisse, até para o seu agente! É como um esticar de braços que esbarra na ideia que estava flutuando ao redor.

Todos já experimentaram a sensação de ter uma ideia, ainda que de algo bem simples. Ela pode ter vindo de supetão ou como uma pequena semente que foi germinando até se tornar alguma coisa concreta. E a impressão que ficou disso é que não se sabe bem como se teve o insight. É bem possível que se possa rastrear as pistas que levaram ao insight, mas ainda assim parecerá que ele tenha surgido num passe de mágica.

Talvez Platão tenha razão em distinguir o mundo perfeito do mundo que percebemos, de simples aparências. É naquele mundo perfeito que estão as ideias, dizia ele. Se elas estão nesse mundo perfeito, então nós fazemos algum tipo de conexão com ele quando temos uma ideia. É como colher um fruto de uma árvore de difícil acesso. Alguns podem ter mais facilidade outros menos para apanhar o fruto, mas todos conseguirão algum dia colher algum, mesmo que não seja o maior e o mais viçoso.

É mesmo curioso o que se passa em nossas mentes. Por sorte não conseguimos perceber os detalhes de como a mente funciona, do contrário ficaríamos loucos. Essa questão do surgimento de uma ideia é um exemplo. Como não conseguimos rastrear o processo todo, ficamos com a impressão que a ideia simplesmente surge. Plagiando Platão, novamente, percebemos apenas um mundo de aparências quando perscrutamos as nossas mentes – como as sombras na caverna idealizada por ele –, iludidos quanto ao que se passa realmente lá no fundo delas. Mas se uma árvore – cujos frutos são as nossas ideias, os quais podemos colher de vez em quando – for uma imagem satisfatória, não será preciso ir atrás de explicações mais elaboradas para a criação das ideias. Então, o mundo de aparências pode ser tão útil quanto o real, mesmo porque não há outra alternativa em que se apoiar.

Por fim, se você não for um dos privilegiados que têm grandes ideias não se preocupe porque você ainda é um privilegiado por poder desfrutar delas. Essa é uma das boas coisas da vida.

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3 comentários sobre “A árvore de Platão

  1. Olá xará,
    Creio que as idéias surgem quando alguém as procura. Você é um destes, pois sempre encontra um novo tema sobre o qual discorrer. Uma mente ocupada é uma mente sã e cheia de idéias. Continue assim.
    Abraço.
    Spilak

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