DNA 2.0

A natureza já fez um trabalho incrível para chegar no DNA 1.0 do qual todos nós fazemos parte ou, melhor, que faz parte de todos nós. É verdade que ela demorou um tempão para chegar nele e o resultado final ainda não está bem acabado. Todavia, considerando que ela não dispunha de nenhum recurso e ferramentas especiais, não se pode negar que foi um trabalho incrível. Pode-se dizer que ela partiu do zero, isto é, da matéria inanimada, para chegar até nós, o seu produto mais complexo. Ainda que se considere que a vida na Terra possa ter vindo de um outro lugar, isso não desmerece o trabalho da natureza porque, nesse caso também, ela terá sido a responsável pelo que aconteceu naquele outro lugar.

A história de como chegamos até aqui todos conhecem. Quem quiser refrescar a memória pode ler o excelente livro do biólogo Richard Dawkins, “A grande história da evolução”, e ficar novamente deslumbrado com o que aconteceu nos últimos 3 bilhões de anos, depois do aparecimento da vida no nosso planeta. Para os nossos padrões de tempo, essa história tem sempre que ser contada com a tecla “avanço rápido” acionada, visto que a natureza tem o seu tempo e nenhuma pressa para realizar as suas tarefas. (Não sei por que, sempre admirei esse modo de encarar o trabalho.)

Enquanto que a cada poucos anos surge um modelo novo de automóvel ou uma nova versão do Windows, com o DNA a situação é bem diferente. Neste caso, uma mudança de modelo (ou de paradigma, como dizem os cientistas) pode levar da ordem de bilhões de anos. Foi o que aconteceu entre os eventos mais espetaculares da história da vida: 1) da formação do planeta (4,5 bilhões de anos atrás) até o aparecimento do primeiro organismo vivo (mais de 3 bilhões de anos atrás); 2) deste para o primeiro organismo multicelular (mais de 2 bilhões de anos atrás); e 3) deste último até o Homo sapiens (praticamente ontem).

Portanto, para falar em um novo modelo de DNA esbarra-se em dois problemas sérios. O primeiro é prever as características desse novo modelo e o segundo, estimar a data quando ele será lançado. A bem da verdade, esses dois problemas poderão ser eliminados de uma vez se cogitarmos que não haverá tempo suficiente até o lançamento do novo produto. A fábrica poderá fechar antes.

Mas supondo que não aconteça o apocalipse tão cedo, que tipo de evolução do ser vivo se poderia esperar num futuro longínquo? É uma questão difícil de responder. Tão difícil quanto prever o campeão de um esporte que ainda não foi inventado. Mas aqui não há a opção de desistir cedo pois isso não está no DNA deste blog. Então vamos especular.

Nas histórias de ficção as opções para os seres do futuro são várias. Os humanos poderão se transformar em seres híbridos, como no filme Robocop, ou puramente cerebrais e etéreos, como em Aurora Boreal (texto deste blog), ou poderão deixar o seu legado para as máquinas que poderão suportar melhor o ambiente hostil do futuro longínquo, como no filme Inteligência Artificial.

No filme Avatar, entretanto, tem uma dica que parece fazer mais sentido. O filme fala sobre um planeta onde os seres vivos estão de alguma forma integrados entre si e com o meio-ambiente. É essa dica que vou seguir aqui. Um caminho que levará a uma sociedade dotada de consciência coletiva, não somente do ponto de vista social ou comportamental, mas também biológico. Isto é, uma consciência coletiva derivada de uma característica genética que estará inserida no DNA 2.0.

Existem hoje alguns ingredientes que poderão ser usados para se construir essa sociedade do futuro. As plantas têm uma interação com o solo muito peculiar pois tira dele os seus nutrientes e, ao mesmo tempo, serve de proteção para ele contra a erosão. Alguns insetos, como alguns tipos de formigas e abelhas, têm um senso de organização social que os faz se comportar visando sempre ao bem da colônia. E o ser humano tem a sua engenhosidade que pode ser útil nessa tarefa de construir uma sociedade do futuro (embora nunca a tenha utilizado com esse propósito).

A natureza terá que juntar tudo isso num mesmo caldo e sair com um novo DNA. Não é uma tarefa fácil, ainda mais considerando que a natureza não tem propósitos e faz tudo ao acaso. Entretanto, desta vez ela poderá ter uma pequena ajuda do Homo sapiens.

E se tudo der certo, quando esse DNA 2.0 estará pronto para substituir o antigo? Pela escala de tempo mencionada acima, isso ainda pode demorar mais de 1 bilhão de anos, sem se considerar a ajuda do Homo sapiens. Com essa possível ajuda uma estimativa é impossível pois isso nunca aconteceu antes na história da evolução. Mas não há pressa porque o nosso Sol ainda pode durar por mais meia dúzia de bilhões de anos. O único problema é que enquanto o DNA 2.0 não fica pronto nós vamos ter que conviver com os bugs do DNA 1.0.

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