Sinais exteriores

Cabeça e voz baixas, olhar indireto, rubor na face, braços esticados e entrelaçados em frente ao corpo, mãos entrelaçadas atrás da cabeça, sorriso amarelo. Todos esses gestos denunciam a timidez de uma pessoa e são mais frequentes nas crianças que ainda não desenvolveram técnicas de disfarçar seus sentimentos.

Assim como esses traços que denunciam a timidez, outros gestos e expressões podem ser captados que denotam outros sentimentos das pessoas. São os sinais exteriores. Observando-os atentamente pode-se ter uma ideia do que se passa na cabeça dos outros. Mas só uma ideia, porque o real conteúdo está inacessível a tudo e a todos, guardado dentro de um buraco negro no qual reside, em completa solidão, a mente humana.

Nas histórias infantis que tenho escrito, o personagem Nuno, uma criança, tem a capacidade de ler a mente das pessoas e captar os seus sentimentos mais secretos. Mas isto, evidentemente, é só ficção. Na realidade, nem com o auxílio dos equipamentos mais sofisticados se consegue observar ou entender o que se passa em outra cabeça.

Muitas das emoções, sentimentos, ou seja lá que nome se dê ao que se passa em nossas mentes, só podem ser transmitidos por quem os experimenta e ainda assim, muitas vezes, com dificuldades para expressar o que ele de fato está sentindo. Se nem mesmo ele consegue expressar direito os seus sentimentos, imagine alguém de fora!

A bem da verdade, é uma sensação muito rica essa de poder apreciar os sinais exteriores emitidos pelas pessoas e ver neles indícios de sentimentos que nós próprios experimentamos. Os astros de cinema, teatro e televisão são mestres em captar e reproduzir esses sinais e não é à toa que conseguem emocionar os espectadores. Essa linguagem dos sinais é o auge da experiência de compartilhar a sensação de pertencer a uma mesma espécie.

Outras espécies podem, também, revelar seus sentimentos por meio de expressões. Quem tem um cachorro ou gato sabe disso. Nessa hora podemos imaginar o que se passa na cabeça desses bichinhos e é bem possível que estejamos certos, pois algumas expressões, especialmente dos olhos, são muito parecidas com as nossas e, portanto, devem refletir sentimentos também parecidos com os nossos.

A situação pode ficar confusa, entretanto, quando se está diante de um robô que procura simular os gestos humanos. É bem verdade que, no atual nível tecnológico, suas expressões ainda são pouco convincentes, mas é possível que logo se construam robôs com expressões faciais semelhantes às nossas. E voz, olhar, gestos e muitos outros sinais exteriores parecidos com os das pessoas. Afinal, essa não é a parte mais desafiadora da inteligência artificial.

Quando isso acontecer, estaremos diante de uma máquina que reage como uma pessoa, embora internamente ela possa ser um mero processador de zeros e uns. A grande maioria das pessoas certamente não entenderá os mecanismos que farão um robô demonstrar sentimentos. A questão é se isso fará diferença na nossa interação com eles. Não ter ideia de como aquelas reações são produzidas na cabeça daquele ser metálico será fatal para uma interação afetiva entre homem e robô? Se pensarmos bem não deveria fazer diferença, porque não sabemos, também, o que se passa na cabeça de outra pessoa, a não ser por comparação com a nossa. O fundamental deveria estar nos sinais exteriores que são tudo o que nossa mente gostaria de perceber em quem (ou naquilo que) interage conosco.

Mas vai ser preciso tempo para se acostumar com a ideia de compartilhar uma experiência com uma máquina. Para as crianças, essa tarefa vai ser mais fácil, mas acho que os adultos, depois de certa relutância, também tirarão proveito da companhia dos robôs. Depois de algumas gerações, quem sabe, as máquinas poderão ser tratadas como pessoas em certos aspectos.

As pessoas são muito carentes da interação com outras pessoas, nas quais buscam apoio, solidariedade ou simplesmente companhia. Certamente os seres humanos serão sempre mais eficientes nessa forma de interação do que os mais evoluídos dos robôs poderão vir a ser. Mas é uma pena que não a pratiquem tanto quanto se deveria praticar para dispensar a ajuda das máquinas. Estas deveriam nos ajudar em outras tarefas que possam executar melhor do que nós, frágeis mortais.

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Um comentário sobre “Sinais exteriores

  1. BCD,

    Concordo com voê, nunca dá para saber tudo que vai na mente dos outros.

    Mas na verdade, somos muito egoístas (eu incluso) e não prestamos atenção nos outros.

    Uma vez, em um curso, participei do seguinte exercício, feito em duplas.

    Uma pessoa contava para a outra a história de sua vida, e quem escutava tinha que prestar atenção nos sinais emitidos e dizer as emoções que a pessoa sentia.

    É impressionante o que se consegue observar quando se presta atenção.

    O abraço,

    Ary

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