Um ensaio sobre a dúvida

Das características que definem a natureza humana uma das mais simpáticas é a dúvida. Ela é humilde e sincera. Não é arrogante como a demonstrar que sabe tudo. Ao contrário, não tem certeza de nada. É insegura e muda de opinião constantemente. Ou melhor, não tem opinião. É “Maria vai com as outras” e, ainda no meio do caminho, volta atrás. Vai ou não vai com as outras? Não sabe se vai ou se fica. Se vai, não sabe aonde; se fica, não tem certeza onde está.

Como ela gostaria de ser segura de si, como o pensador de Descartes: “Penso, logo existo”. A se basear nos filósofos, ela nem mesmo tem certeza de existir, pois eles dizem que se deve sempre duvidar da dúvida, uma vez que quem duvida entre uma coisa e outra de fato não aceita nem uma nem outra, pois do contrário não estaria em dúvida. Mas se não aceita nem uma nem outra não há dúvida e ela própria se aniquila. Coitada! Mas Descartes vem ao seu socorro ao dizer que “Não podemos duvidar de que existimos quando duvidamos”. Ora, se existimos e duvidamos é porque existe a dúvida. Ou não?

Ela é própria de nós, os seres humanos, que se dizem superiores a todos os demais seres vivos e até aos inanimados. Se nós, seres superiores, estamos cheio de dúvidas, o que dizer dos outros? Dos inanimados digo logo, eles não têm dúvidas! Nem sequer se são animados ou inanimados, pois o seu nome já vai logo tirando qualquer dúvida. Quanto aos outros animais, fico em dúvida. Parece que não têm a dita cuja: eles sabem perfeitamente quando são presas ou predadores. Os que poderiam estar em dúvida já foram comidos. Portanto, só a nós restam dúvidas. Ou você ainda duvida?

Em sua humildade e com toda a sua insegurança a dúvida não percebe o quanto ela é importante. É a chama piloto que mantém o cérebro pensando. Se houvesse só certezas o cérebro, ocioso, acabaria entrando num sono profundo. – Ei, acorda! Tenho algumas dúvidas: Deus existe? O homem é mau? Do que é feita a matéria? E o aquecimento global, é culpa nossa? Por falar em global, este ano vai ser o BBB 341, ou 342? – Huumm, sai daqui! Estou muito seguro de mim mesmo e não tenho tempo para pensar em besteiras. Aliás, para pensar em coisa alguma. Já sei tudo. Huumm, que monotonia! Ok, manda a primeira dúvida, mas uma bem simples para eu voltar a dormir. Como é chato saber tudo!

A dúvida e a certeza são antagônicas e quando se tocam uma aniquila a outra, como no choque entre matéria e antimatéria. Não sobra nada, nem a verdade e nem a mentira. Alguns já viram traços de meia-verdade num choque desses. Ou era meia-mentira? Alguns pesquisadores estão em dúvida sobre isso. Outros têm certeza do que viram. No entanto, na hora do almoço, quando eles se sentaram à mesa do restaurante, o choque foi horrível. Não sobrou um pesquisador, pelo que se sabe. Embora algumas garçonetes tenham afirmado, de pés juntos, que eles viraram fumaça, outras afirmam que não tinham certeza do que viram: “Foi horrível!”. Na delegacia, quando elas se encontraram para dar depoimento, novamente: Buumm! Alguns cientistas falam em produzir uma nova arma mortífera com a fusão da dúvida e da certeza.

É assim que a dúvida vem humildemente contribuindo para o avanço do conhecimento, mantendo acesa a chama piloto em nosso cérebro, estimulando os nossos pensamentos, seja em que direção for, num assunto nobre ou corriqueiro, material ou existencial. O nosso dia está repleto delas na sua forma mais banal, mas, nem por isso, menos importante: Gosto mais disto ou daquilo? Vou ao barbeiro hoje? Ligo ou não para a minha mãe? Que roupa vou usar hoje? Peço ou não desculpas pelo meu erro desta manhã? Vou ao supermercado ou compro comida pronta? Somadas todas as respostas para essas dúvidas o resultado é uma vida inteira. Não tenha dúvidas! Ou melhor, tenha-as aos montes!

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