Penso, logo existo

Uumm … esta cama está muito gostosa! Vou ficar deitado mais um pouco. Mas, até quando? Logo preciso me levantar. Ah, esquece! Não tenho nada para fazer; vou dormir mais um pouco. Acho que vou me levantar, mas … que preguiça! Vou me deixar levar pelo impulso; num certo momento sei que vou me levantar. Por enquanto vou curtir essa indecisão e ficar aqui me espreguiçando.

Pronto, estou de pé. Como tomei esta decisão, não sei. O fato é que estou de pé no banheiro, escovando os dentes e lavando o rosto. Entendo porque muitas pessoas acham que não temos livre-arbítrio. Essa situação de levantar-se da cama é um bom exemplo. Não sinto que tomei a decisão autonomamente. Algum mecanismo em meu cérebro parece que tomou essa decisão por mim, sem me consultar.

Vai ser um novo dia em que vou tomar muitas decisões, algumas conscientemente e outras não, como esta que me tirou da cama. Não gosto de tomar decisões que exigem pensar muito. Sou o que chamam de “preguiçoso mental”. Quando vou ao supermercado gosto de apanhar os itens que estão disponíveis na prateleira, de marca e tamanho bem definidos. Não gosto de escolher frutas e verduras; de ter que escolher as mais maduras ou viçosas entre um mundaréu de concorrentes. Exige muito do cérebro.

Como gosto de perguntas que só admitem sim ou não como respostas! É preto no branco! O meio-termo exige bom-senso e isso cansa demais. Lidar com outras pessoas é muito complicado, pois as decisões que temos que tomar têm que ser cuidadosas. Nunca se defronta com um simples “sim ou não”. Um “sim” ou um “não” pode magoar as pessoas, então temos que pensar em formas de contorná-los. Aí é que vem a parte difícil, pois existe uma infinidade de maneiras de contorná-los. Qual é a dose certa entre um sim ou um não puro-sangue?

Foi assim, procurando sempre essa dose certa, que acabei magoando mais pessoas do que teria feito se usasse a versão binária pura e simples. As pessoas devem comentar entre si: “Não pergunte a ele. Ele está sempre em cima do muro”. Essa dificuldade de lidar com os amigos tem me provocado danos físicos. Acabei ficando inseguro e ansioso demais e é por isso que estou indo ao médico hoje. Vou passar por um exame chamado de fMRI – Imageamento funcional por Ressonância Magnética -, ou coisa parecida, que vasculha o seu cérebro e encontra as menores falhas no seu funcionamento.

Hoje é o dia marcado para o exame e, confesso, estou um pouco nervoso. Mas os médicos são, acima de tudo, psicólogos e estou mais tranquilo agora que já estou envolvido por essa gigantesca máquina e o exame vai começar. Acho que os resultados estão bons porque os médicos que operam a máquina estão conversando animadamente. Afinal, quem não tem essa síndrome de agradar a todos? Quem gosta de magoar as pessoas? Pensando bem, acho que sou muito normal e essa minha insegurança e ansiedade não têm razão de existir. A partir de hoje vou tomar as decisões de forma menos complicada e deixar a vida me levar.

Que bom, os médicos continuam a conversar animadamente, embora eu não consiga ouvir o que eles estão dizendo.

– O que você achou dos resultados? Muito bons, não?

– Beleza! O mapeamento está excelente. É uma grande conquista para a inteligência artificial. Não há diferença entre o cérebro dele e o de um ser humano.

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