Liberdade

Se eu fosse supersticioso teria material para pensar no que aconteceu hoje de manhã. Eu estava caminhando e ouvindo música, como sempre, e tinha acabado de ouvir “Se eu quiser falar com Deus”, de Gilberto Gil, quando começou a próxima música “She is leaving home”, dos Beatles. Notei que as músicas, coincidentemente, falam do inconformismo com regras, que esconde um profundo anseio por liberdade. Na primeira, o homem questiona as exigências de um Deus que pode nem existir e, na segunda, a filha abandona a casa dos pais para viver a sua vida.

Pensei: “Que grande coincidência essas duas músicas virem em sequência na trilha musical que gravei no meu celular!”, e mais: “Como elas estão sintonizadas com o tema do meu blog sobre criadores e criaturas! Seria algum tipo de sinal?”

Que nada! Primeiro, as músicas estão em sequência porque obedecem a uma ordem alfabética e, segundo, o assunto está nas músicas do meu celular e também no meu blog justamente porque eu tenho certa predileção pelo tema. (Sim, a letra é parte importante da música! Chico Buarque que o diga!)

Coincidências à parte, pensei um pouco mais no tema das músicas e percebi que ele caracteriza bem a natureza humana, que valoriza a liberdade acima de tudo, ou de quase tudo. Ainda que pagando o preço de perder a segurança e a orientação – oferecidas pelos pais ou por Deus – o ser humano anseia por uma vida em que possa tomar as decisões livre de amarras impostas por regras, ainda que estas visem ao seu próprio bem. E, muitas vezes, rompe com os seus criadores, mais comumente, com os pais.

Indo mais adiante com o assunto, não é difícil entender por que a justiça utiliza a privação à liberdade como instrumento de punição – entre outras finalidades – aos indivíduos que praticam um crime. Para o ser humano é um castigo e tanto perder a liberdade. Daí, ocorreu-me a ideia que, em outras vezes, sempre descartei de cara por não considerar castigo suficiente: já que a liberdade é tão importante para o ser humano, por que não utilizar mais largamente o recurso da prisão domiciliar aos praticantes de crimes?

O aprisionamento em um local isolado (prisão), além de restringir a liberdade do preso, tem o objetivo, também, de impedir que ele continue a ser uma ameaça à sociedade. Mas, com alguns cuidados e tecnologia, a prisão domiciliar também poderia servir a esse propósito. A vantagem da prisão domiciliar, entretanto, é que o criminoso teria mais chances de se regenerar em casa do que num ambiente como o das prisões.

É evidente que existem situações – provavelmente muitas – em que a prisão domiciliar não é possível. A mais óbvia é quando o criminoso não possui um lar. Outra é quando a própria família se sente ameaçada pela presença dele em casa, como aconteceria, por exemplo, no caso dos crimes hediondos. Nesses casos não há outra solução senão a prisão convencional. Nos outros casos a prisão domiciliar teria vantagem sobre a convencional, tanto na recuperação do criminoso quanto em relação ao custeio da sua pena, que deixaria de ser um ônus para o estado.

Sei que muitos não tolerarão saber que um criminoso continua vivendo ao lado dos seus entes queridos e recebendo os amigos para um churrasco nos finais de semana. Mas ele não poderá mais ir para onde quiser e isso certamente vai pesar em sua consciência. À família caberá o trabalho mais importante de reintegrá-lo à sociedade.

De qualquer modo, é necessário repensar a questão da reparação do erro cometido por um ser humano e, nessa hora, especialmente, é preciso fazer valer a nossa humanidade.

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8 comentários sobre “Liberdade

  1. Oi Caco
    É uma questão bem difícil de ser analisado pela Justiça…quando e porque um merece uma prisão domiciliar….se na prisão domiciliar …ele vai ter crises de consciencia para se recuperar:!!!!!:>> ou vai continuar arquitetando novos “planos” e rindo da “justiça” por ser tão condescendente….!!!!Brasil precisa mellhorar muito em termos de “justiça” ….vamos rezar muito para que em 2015 seja um ano de paz em familia e no país…
    Em tempo……. Feliz ano novo com muiiiita….saude, paz e amor a vc e seus familiares…

  2. Caco,

    Mais uma vez, você acerta na mosca, ao explorar o tema da sanção.

    Acho que você apreciaria o livro de Jean Marie Guyau – CRÍTICA DA IDEIA DE SANÇÃO.

    Guyau morreu muito jovem (31 anos, em 1888)), mas escreveu livros importantes, três, pelo menos, fundamentais

    para quem pensa como nós: A GÊNESE DA IDEIA DE TEMPO, A IRRELIGIÃO DO FUTURO, e o sobre a sanção.

    Abraço fraterno

    Nílson

  3. BCD,

    Para mim, SSLH não é uma música sobre liberdade. É uma música sobre a solidão e pequenês (existe essa palavra?) das nossas vidas. “She’s leaving home after living alone for só many years…”

    Aliás, essa música para mim é irmã gêmea de Eleanor Rigby. Não só pelo tema, como pelo arranjo. Para mim, quem saiu de casa foi a Eleanor Rigby, que quando morreu foi enterrada pelo Father McKenzie.

    Quanto a falar com Deus, não sei porque tanto barulho… Eu falo sempre com Ele (ele raramente responde).

    Abraço,

    Ary

    • Ary, Nada como um expert em Beatles para elucidar as questões sobre as suas músicas. Valeu! Quanto a falar com Deus, faço uma analogia com a conexão de internet ou telefonia: alguns têm banda larga de alta velocidade, outros de baixa velocidade, uns 3G outros 4G e outros estão simplesmente desconectados. Tudo depende do investimento que cada um faz no equipamento adequado, chamado de fé. BCD

  4. Hahaha…

    Concordo com você.

    Só que esse investimento não é disponível para todos. Alguns têm, outros simplesmente não tem. Nascem com uma doença chamada agnosticismo.

    Ou ceticismo, como queira.

    Abraço.

  5. Certa ocasião fiz parte da entidade APAC, fundada pelo nobre Dr. Mário Otoboni, como presidente, pessoa da mais alta conta de nossa Sociedade Joseense, Advogado de formação, postulante da religião católica, e tinha como vice-presidente o mui digno Dr. Franz (sobrenome alemão) Neto, extremamente católico, portanto, a entidade através da religião buscava a recuperação dos detentos, que contava com uma população carcerária bastante difícil, pois eram elementos de alta periculosidade. Por um determinado tempo, a instituição estava conseguindo seu intento, passando ser uma entidade exemplar se tornando espelho, e refletindo sua imagem a vários outros países, da América do Sul. Mas, infelizmente aconteceu o imprevisto e o inesperado que, numa rebelião em Jacareí, aquele que era querido por todos, Dr. Franz Neto, um verdadeiro Santo, se colocou como mediador entre a polícia e os detentos. Infelizmente aconteceu o tiroteio e foi covardemente fuzilado.E aí a entidade ainda tentou sobreviver, mas não demorou muito e acabou sucumbindo, apesar, do esforço de seus dirigentes e fundadores. E como participei por algum tempo pude perceber que a entidade não era bem aceita pela corporação policial. A entidade procurava não só trabalhar com o detento, mas também com sua família, o que era muito importante. Não tenho certeza, mas me parece que continua com a ala feminina. Então, Caco, penso, que a coisa é muito séria e de difícil solução, porque infelizmente depende da vontade política de nossos governantes, que infelizmente percebemos não haver interesses a respeito.

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