Lucy in the sky

Todos conhecem ou imaginam como são os efeitos de drogas, álcool e medicamentos à base de barbitúricos sobre a mente das pessoas. Eles provocam euforia, contentamento, entorpecimento, serenidade, enfim uma gama de estados mentais que poucas vezes uma pessoa em estado normal consegue atingir. Não é à toa que esses agentes são objeto de desejo de muita gente, pelos quais pagam o que for necessário, em dinheiro ou não. Infelizmente eles causam dependência e têm efeitos colaterais que podem ser muito danosos às pessoas. Que pena!

Entretanto, não é absurdo imaginar que um dia haverá tecnologia capaz de produzir aqueles mesmos efeitos sem causar danos às pessoas, como nas histórias de ficção científica. Indo além, haverá um dia em que um indivíduo poderá ser conectado a uma máquina que produz os estímulos convenientes em seu cérebro conduzindo-o a um verdadeiro estado de “graça”, que se manterá enquanto ele estiver ligado à máquina.

Todavia, não é razoável supor que uma tal tecnologia seja desenvolvida com o intuito de transformar toda a humanidade em pessoas felizes vivendo atreladas a máquinas. A ideia, embora atraente em filmes de ficção científica, não faz muito sentido. Alguém teria que ficar tomando conta do mundo para produzir os meios de sobrevivência dessa sociedade em estado de graça. (Esse alguém poderia ser outra máquina ou máquinas, mas aí já estou plagiando os filmes de ficção.). Há inúmeras outras razões para considerar esse objetivo pouco realista, as quais, entretanto, não vêm ao caso neste momento.

É mais realista supor que uma tal tecnologia poderia surgir como um subproduto das pesquisas que visam a entender melhor o nosso cérebro e assim poder tratar as doenças mentais que marginalizam parte significativa da sociedade. É desse esforço que poderia surgir uma tecnologia para estimular as sensações agradáveis na mente das pessoas de forma pouco invasiva. Seu primeiro uso seria levar conforto aos doentes mentais e minorar o sofrimento de pessoas, jovens ou idosas, com doenças em estado terminal ou incapacitantes em alto grau. Não é com esse intuito que se utilizam drogas nos hospitais? Pois bem, seria a mesma coisa, mas ao invés das drogas seriam utilizados dispositivos que agissem diretamente no cérebro. Tais dispositivos produziriam efeitos semelhantes aos causados pelas drogas, mas de forma mais efetiva, controlada e menos invasiva. Para esses pacientes o ato de passar os seus últimos dias de vida (ou o resto de suas vidas) num tal estado de felicidade ou serenidade seria como ingressar antecipadamente no paraíso.

Essa nova situação certamente traria consigo vários desafios éticos e morais e não é difícil imaginar alguns deles. Essas máquinas poderiam ser utilizadas livremente em qualquer instituição ou apenas em hospitais? Seus altos custos só permitiriam que ricos tivessem acesso a essa “felicidade artificial”? Que atividades clandestinas essas máquinas poderiam estimular? Que grau de alienação a disseminação dessa tecnologia poderia provocar na sociedade? O indivíduo saudável precisaria desse tipo de artifício para se completar?

A rigor, essas questões não são novas, pois uma sociedade tecnológica tem sempre que enfrentar desafios dessa natureza quando uma nova tecnologia é introduzida no dia-a-dia das pessoas. Injustiças são comuns na distribuição dos benefícios gerados por uma nova tecnologia e geram disputas que acabam descambando para a criminalidade. O ponto sensível, neste caso, é que ele envolve a manipulação do estado mental do indivíduo e, assim sendo, tem o potencial de transformar completamente a sua vida e, por extensão, criar um novo tipo de sociedade.

Constate-se, no entanto, que resolver essas questões faz parte do papel de uma sociedade civilizada. Afinal, quem tem inteligência suficiente para criar tecnologias milagrosas deve ser capaz, também, de cuidar dos seus efeitos colaterais. Só não é aceitável ficar imobilizado diante dos obstáculos potenciais.

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Um comentário sobre “Lucy in the sky

  1. Valeu, Caco.

    Mais um tiro certeiro de sua pena!

    Excelente a temática, visão comedida,

    ou COM MEDIDA, como diria o Masa.

    Abraço

    Nílson

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