Enquanto isso em Andrômeda …

Opsxy tinha acabado de enviar uma selfie para a sua amiga Eyyks, com a vista esplêndida das montanhas atrás de sua imagem, quando recebeu uma mensagem dela: “Vamos almoçar às 5 trans e 10 passagens?”. “Sim, mas ainda tenho 10 passagens para terminar o que estou fazendo e, talvez me atrase umas 20 passagens. Quanto mais ocupado se está, mais rápidas são as mudanças! Que tal 5t30p?”, respondeu ele. “Combinado, então.”, finalizou Eyyks.

Essa cena foi registrada por uma sonda terráquea em visita à galáxia de Andrômeda, quando orbitava o planeta Zetta. Ela foi analisada e reanalisada por cientistas da Terra para decifrar o seu conteúdo e conhecer mais sobre a cultura daquela raça que estava sendo estudada há muito tempo pelos terráqueos. As informações enviadas pela sonda já tinham permitido aos terráqueos conhecer muito da cultura daquela raça, inclusive a sua linguagem.

Era uma raça evoluída, sem dúvida, tão ou mais evoluída do que os humanos, muito embora essa mania de selfie mostrasse que eles também tinham as suas limitações. Esse tipo de diálogo já havia aparecido em outras gravações da sonda e os cientistas tinham um bom palpite sobre o seu significado. Não havia mais dúvida de que a cultura da raça zettaqueana não incorporava o conceito de tempo como nós o conhecemos.

No princípio, parecia que utilizavam os termos “trans”, “passagens” e “oscilações” para denotar a passagem do tempo, assim como utilizamos horas, minutos e segundos. E o termo “mudança” para significar “tempo” de uma forma genérica. Entretanto, outras informações sobre seus hábitos, linguagem e, principalmente, escritos científicos vieram a confirmar que os zettaqueanos não fazem qualquer menção ao que chamamos de “tempo”.

Não tardou para que os cientistas terráqueos deduzissem que os zettaqueanos utilizavam única e exclusivamente o conceito de “mudança”, porque mudança e tempo são conceitos redundantes. (Mudança é qualquer transformação da matéria, seja na sua constituição – transformação química ou física – ou na sua posição – movimento.) As unidades de medida que aparecem nos diálogos e escritas referem-se exclusivamente às mudanças, ficando o conceito de tempo completamente ignorado.

O tempo, como nós o conhecemos, só existe porque existem as mudanças, ou transformações: sem mudanças o tempo para e logo ressurge com a primeira mudança que venha a ocorrer. Percebemos o passar do tempo porque a matéria está em constante transformação em nossa mente. Poderíamos muito bem dizer que o que percebemos são as mudanças e não o tempo, essa entidade fluida e redundante que criamos.

Não é à toa que marcamos o tempo pelas oscilações de um pêndulo ou de um cristal. Estamos, na verdade, registrando mudanças, assim como os nossos vizinhos zettaqueanos. Mais práticos do que os terráqueos, os zettaqueanos nunca especularam sobre viagens no tempo, justamente porque isso não faz qualquer sentido para eles. Todavia, o mais importante nessa história toda é que na cultura zettaqueana, em que não existe o tempo, a morte é encarada com mais naturalidade pois ela não passa de uma mudança igual a qualquer outra nessa sequência infindável de mudanças da matéria no universo. Pelo menos é o que as informações da sonda permitem deduzir.

Enquanto olhava para a sua refeição, Opsxy disse: “Tenho a sensação de que estamos sendo observados.” – “Eta! De novo este assunto?!”, disse Eyyks.

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