Posso entrar?

Dois episódios recentes me fizeram refletir sobre o universo particular que cada um carrega em sua cabeça. Primeiro foi o nascimento de minha segunda neta; logo em seguida veio o aniversário da minha mãe, a bisavó. Se cada um tem o seu próprio universo, como devem ser diferentes os dessas duas pessoas em fases tão diferentes de suas vidas! Como eu gostaria de conhecê-los tão profundamente como eu conheço o meu próprio universo! De poder ajudar de alguma maneira, mas, principalmente, de absorver deles as qualidades que ainda não tenho ou que já perdi ao longo do tempo. Infelizmente não é possível adentrar a mente alheia, por mais que este seja um desejo tão arraigado em nós.

Este é um assunto instigante sobre o qual já falei em “Nossos universos paralelos“. Algum dia será possível conhecer a mente de outra pessoa? A ciência e a ficção sempre se interessaram por esta questão. No caso da ciência, pela simples razão de que uma tecnologia que permitisse conhecer a mente de outra pessoa tornaria possível fazer diagnósticos de doenças que não poderiam ser feitos nos casos em que o paciente é incapaz de exprimir adequadamente o que sente, seja porque não está em pleno domínio de suas capacidades físicas ou porque ainda é muito jovem para se expressar. No caso da ficção, porque este assunto desemboca invariavelmente em tramas de invasão de privacidade e domínio da mente alheia, o que não deixa de ser um alerta para as pesquisas sérias nessa direção. (É claro que há histórias de ficção mais inocentes, como a do livro “Foundation’s Fear”, de Gregory Benford, – uma continuação da trilogia “Fundação”, de Isaac Asimov – em que um centro turístico oferece como atração uma imersão na mente de um dos macacos que ali residem. Por um tempo o turista vive no corpo do animal e pensa e sente como o seu hospedeiro.)

Há um outro aspecto, entretanto, que quero explorar sobre esse nosso universo interior que engloba todas as nossas memórias, sentimentos, valores e conceitos e nos coloca no centro de tudo. Pois bem, esse universo de cada um tem grande semelhança com o universo físico, esse onde vivemos, constituído pelo nosso planeta Terra e os outros corpos celestes. Enquanto o universo físico surgiu da matéria concentrada em um minúsculo ponto que se expandiu rapidamente, em decorrência de um evento conhecido como Big Bang, para formar os planetas, estrelas e galáxias, o nosso universo interior surgiu de um processo de multiplicação rápida de células (o nosso Big Bang) que resultou no cérebro do feto e evoluiu para o cérebro do bebê, da criança e do adulto.

Além disso, sabe-se que o universo físico teve uma expansão rápida nos seus primeiros momentos de vida por meio de um fenômeno chamado de inflação e continua a se expandir, porém a uma taxa mais baixa, ficando cada vez mais rarefeito até se tornar um imenso vazio. Do mesmo modo, a mente de um bebê (seu universo) expande-se exponencialmente em contato com as novas situações e experiências, num ambiente em que predominam a curiosidade e a agitação. Com o passar do tempo, essa expansão desacelera e, quando idoso, seu universo assemelha-se a uma imensa biblioteca das suas memórias, onde cada vez mais títulos vão se tornando ilegíveis, num ambiente em que predominam o sossego e a paz.

A analogia vai mais longe se pensarmos na ideia de multiversos, uma teoria muito em voga na ciência. Se aqui na Terra existem cerca de 7 bilhões de universos mentais – um para cada habitante -, também existiriam muitos, talvez infinitos, universos mundo afora, segundo a teoria dos multiversos. É verdade que há uma diferença marcante entre essas duas situações pois os multiversos da ciência não se comunicam enquanto que os nossos universos mentais não fazem outra coisa senão se comunicar. Mas é apenas uma troca de informações, não há meios de fazê-los se interpenetrar.

Indo adiante com a analogia, pergunto se algum dia poderia ser descoberto um meio que conectasse esses universos mentais assim como um caminho de minhoca liga os universos físicos nas histórias de ficção científica. Em outras palavras, seria possível, algum dia, sentir ou perceber o que outra pessoa sente ou pensa? O mais próximo disso acho que é o tipo de consciência coletiva (hive mind) presente em certos tipos de insetos, como abelhas e formigas, que agem sempre em função da coletividade. Especula-se (leia aqui) que muitos dos males que afligem a raça humana seriam evitados se tivéssemos, também, essa consciência coletiva. Mas a evolução da nossa espécie tomou um caminho diferente e privilegiou a individualidade em detrimento do coletivo. Se isso foi bom ou ruim, não sei. Só sei que qualquer um ficaria maravilhado se ao perguntar a outro “Posso entrar (na sua mente)?” a resposta fosse “Sim, a porta está aberta!”

Anúncios

2 comentários sobre “Posso entrar?

  1. Oiiiiiii
    Dar meus parabéns e um grande abraços aos avós , segundões e aos pais …
    Vc que entende de universo….vc acha que tem outros ‘planetas” habitados???
    Bj especial a dona Maria Helena…..

  2. Oi Dias,

    Li seu artigo e achei bem interessante mas, não sei não se seria bom abrir essa porta.Acho que poderíamos ter surpresas desagradáveis…….

    Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s