O reducionista

Ele ainda era criança e já tinha essa mania de querer saber do que as coisas eram feitas. Desmontava todos os seus brinquedos para descobrir quais eram as suas peças mais fundamentais e, não ficando satisfeito, quebrava as menores para saber do que eram feitas. É claro, não mantinha nenhum brinquedo inteiro por mais de algumas horas.

Cresceu e sua mania o acompanhou. Queria saber do que eram feitas as músicas que ouvia, os livros que lia, os carros em que andava, as roupas que vestia. De tudo o que olhava queria saber a constituição; nada era exceção. Via as pessoas e logo se perguntava do que eram feitas. O mesmo com as nuvens, o céu, os aviões, … tudo.

De tão obcecado desenvolveu o hábito de olhar para tudo como se tivesse um olhar de raios-X. Não enxergava mais as coisas como elas eram, mas como eram constituídas. E não sossegava enquanto não fazia a si próprio a pergunta: do que isso é feito?

A sua passagem pela universidade aguçou ainda mais essa sua curiosidade pela constituição das coisas. Aprendeu que isso era coisa de reducionista, que tentava explicar as coisas desmembrando-as em partes menores. Ele, então, já nascera um reducionista. Foi a universidade que o fez se interessar por novos conceitos como matéria, campo, força, energia, tempo, espaço. Espaço? Do que, mesmo, é feito o espaço? Pensava: “É o mesmo que perguntar do que é feito o vazio”. E daí? Do que é feito o vazio?

Sua visão de raios-X continuava a acompanhá-lo em qualquer situação onde ele estivesse. O que tem por trás disso? E daquilo? Não parava de fazer essas indagações. Até que começou a voltar-se para si próprio, a perguntar do que eram feitos os seus pensamentos e as suas emoções. Sentiu logo que essa introspecção era um caminho sem volta, como uma cobra que começa a engolir o seu próprio rabo. Mas ele estava decidido a ir até o fim.

O que é a dor? E o amor, o ódio, o medo? Onde estavam as pequenas partes da sua mente responsáveis por esses sentimentos? E assim foi se imiscuindo em si próprio até fazer as perguntas definitivas: E eu, o que sou? Onde, aqui dentro, está aquilo que é responsável pela minha identidade?

Ele logo percebeu que não seria fácil responder a essas perguntas mas sabia, também, que não poderia mais voltar atrás e nem gostaria, pois ali, dentro de sua mente, estava o seu laboratório e ali ele ficaria até encontrar as respostas. Ali deveria estar – ele tinha certeza – a matéria prima de toda a realidade que o cerca.

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