O tempo é coisa do passado

Não sei porque, lembrei-me hoje de um assunto que ficou fortemente marcado em minha memória. Era a época da copa do mundo de 2014 e estávamos em meio a ela, todos excitados com o seu andamento. A forte lembrança, entretanto, não está só relacionada com a copa, mas, especialmente, com um amigo que era tido por todos como maluco. Mas não por mim. Eu conhecia esse cara havia muitos anos e já me acostumara com as suas estranhezas. Ele dizia não entender esse negócio de passado, presente e futuro que todos tinham como uma coisa natural. Ele também não entendia como nós, outros, não entendíamos o que ele falava e sentia. Coerente com as suas dúvidas sobre o passar do tempo, parecia que ele misturava tudo em sua cabeça sem saber exatamente em que época vivia. Por isso, quem o conhecia o taxava de maluco. Menos eu, que dava corda às suas alucinações desenfreadas e até procurava uma explicação para elas. Eu gostava de conversar com ele porque sempre tive essa mania de tentar entender o significado dessa coisa chamada tempo, e ele parecia ter uma relação especial com esse mistério.

Pois durante aquela copa, em meio à comoção geral, ele não gostava de falar do assunto. “Vamos mudar de assunto!”, dizia ele enfaticamente, quando eu começava a falar da copa. Parecia que ele sabia o que ia acontecer naquele fatídico dia 08 de julho. No entanto, se sabia não dizia nada a ninguém, nem mesmo a mim. Sobre alguns outros assuntos ele parecia mais animado em falar, como tecnologia, progresso, desenvolvimento humano. Novamente parecia que ele já vislumbrava, naquela época de grande atraso, que o país iria dar o grande salto que deu nos 20 anos seguintes. Em algumas das suas alucinações, lembro-me vagamente de ele ter mencionado os nomes de grandes presidentes que viríamos a ter nesse período e até de alguns cientistas brasileiros que viriam a receber o prêmio Nobel, tirando-nos da rabeira da ciência em que nós estávamos em 2014. Era curioso como ele citava nomes e proezas, não como antevisões do futuro, mas como se fizessem parte do presente ou até mesmo do passado.

Infelizmente não tive mais contato com ele desde o dia em que ele desapareceu misteriosamente e não mais deu notícias. Isso aconteceu há muitos anos e tenho saudades das conversas que tínhamos, sem qualquer sincronismo, parecendo que vivíamos em épocas diferentes; eu no presente e ele não se sabe onde.

É de fato curioso lembrar daquela época obscura que parece tão longe na nossa história. Estamos agora em uma situação tão favorável que é quase impossível acreditar que vivíamos aqueles tempos terríveis de desníveis sociais, corrupção, criminalidade, analfabetismo. Tenho uma sensação estranha de que aquela época pode não ter acontecido e tudo ter sido uma grande ilusão, assim como o meu amigo dizia sobre o passar do tempo. Mas não, é pura realidade e temos que ficar contentes com a grande conquista do povo brasileiro nos anos que se seguiram a ela. É verdade que nunca mais ganhamos uma copa, mas o brasileiro continuou gostando de futebol e hoje todos têm condição e prazer de assistir a um jogo de futebol no estádio junto com a sua família.

Tenho a sensação que o meu amigo já conhecia esse desfecho.

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2 comentários sobre “O tempo é coisa do passado

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