Palavras ao acaso

Gosto muito da música “Epitáfio”, dos Titãs, que tem o refrão ‘O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Gostei, também, do livro “O andar do bêbado”, de Leonard Mlodinow, que trata da influência dominante do acaso em nossas vidas. A música dos Titãs segue com “Queria ter aceitado a vida como ela é … a cada um cabe alegrias e a tristeza que vier”, enquanto “O andar do bêbado” descreve como a trajetória de diversas pessoas famosas foi influenciada por eventos casuísticos. Ambas as obras apontam para a mesma direção, aquela direção inexorável e cega da aleatoriedade que se sobrepõe a qualquer teimosia humana.

Já que a existência do acaso é indiscutível, qual das ideias está correta: aquela em que temos uma chance de lutar contra ele ou aquela em que nada podemos fazer para enfrentá-lo? Ninguém em sã consciência optaria por esta última e nem mesmo os autores das obras citadas a defenderiam de uma forma definitiva. Mas, ainda assim, a discussão é válida porque a flagrante aleatoriedade da natureza muitas vezes desafia as nossas mais profundas convicções.

Parece absurdo falar em aleatoriedade da natureza, visto que ela é regida por leis bem precisas que possibilitaram a criação de toda essa tecnologia que está à nossa disposição. Ainda que a ideia de determinismo na natureza já tenha sido substituída há muito tempo pela ideia de que a incerteza e a probabilidade estão enraizadas no comportamento da natureza, não é este o aspecto em questão. O significado que se quer dar aqui ao termo aleatoriedade é o da impessoalidade dos acontecimentos que nos afetam, independentemente das leis naturais que os regem. No fundo, o que nos incomoda é não encontrar um propósito para tudo isso que acontece à nossa volta. Não entendemos porque tanta gente inocente sofre com as peripécias de uma natureza tão indiferente a nós.

Estamos frequentemente ameaçados por eventos que acontecem ao acaso. As catástrofes naturais e muitas doenças e acidentes graves acontecem sem dar chance de prevenção ou defesa às vítimas (é certo que muitas vezes esses infortúnios são complementados por outros, estes sim, causados por nós mesmos, mas vamos deixar isto de lado). A maior característica do acaso é que ele não escolhe as suas vítimas e, portanto, provoca injustiças atingindo pessoas inocentes. Daí a razão de se falar tanto do acaso, ora para festejar um momento de sorte, ora para chorar um momento de azar.

Pensando bem, não poderia ser de outro modo. Não se poderia esperar qualquer propósito vindo de fenômenos causados por uma natureza inanimada. O propósito deve estar dentro de nós, os seres pensantes, que nascemos (obra do acaso?) com uma incrível capacidade – ainda que não saibamos utilizá-la em sua plenitude – de colocar ordem onde ela não existe. A cada um cabe contribuir para neutralizar ou minimizar os efeitos negativos do acaso e fazer disso o nosso grande propósito.

A mensagem na música dos Titãs é muito interessante mas só se entendida como um simples desabafo.

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3 comentários sobre “Palavras ao acaso

  1. Olá Dias

    A sua colocação é interessante. É a natureza que convivemos. Talvez seja bom colocar o conceito de entropia que aprendemos, ou quase aprendemos: objetivando os sistemas de baixa entropia, contribuímos para melhorar a ordem.

    Um abraço

    Aristides

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