Só compro pelo valor de face

Algumas situações nos fazem refletir sobre o nosso modo de vida e perceber que uma mudança nele é necessária. Sejam ocorrências importantes, nem tão importantes ou até mesmo insignificantes, todas elas podem trazer lições válidas para melhorar o nosso comportamento no dia-a-dia. Falo especialmente das situações que de início carregam uma ameaça potencial – importante ou não – e que acabam por dar em nada, sem levar àquelas consequências desastrosas que sinalizavam. Os exemplos são inúmeros e vão desde uma previsão de chuva no final de semana até uma profecia de apocalipse; de um aviso de cartão inválido, no pagamento de uma compra no supermercado, até uma intimação para comparecer na Receita Federal; do prenúncio de uma gripe até uma prescrição médica para fazer uma biópsia; de um blefe do adversário no jogo de pôquer até uma queda no preço da ação mais importante de sua carteira de investimentos; de um gol do time adversário no início do jogo até a ameaça de ter seu time rebaixado para a segunda divisão; da falta de notícias da garota depois do primeiro encontro até o convite (intimação) da esposa para discutir a relação; e por aí vai.

O ponto comum em todos esses exemplos é que eles sugerem a possibilidade de que algo ruim venha a acontecer, ainda que a intensidade do desastre seja muito diferente em cada caso. O grau de certeza de que o desastre vai acontecer também é diferente em cada caso. Não importa! Ficamos, na maioria das vezes, influenciados pela ameaça e agimos como se o desastre fosse inevitável. Imaginamos logo o pior, sem pensar nas reais possibilidades de que o pior venha a acontecer. Uma pequena possibilidade já é suficiente para amargurar nossa vida. Obviamente, essa atitude é muito prejudicial e pode levar a consequências mais desastrosas do que aquelas que as próprias notícias sugerem. Vamos nos libertar dela! Vamos simplesmente comprar a notícia pelo valor de face!

Explico. A expressão “valor de face” é utilizada na área financeira para designar o valor nominal de um título, sem considerar possíveis ágios ou deságios no momento de compra ou venda. Comprar pelo valor de face significa, portanto, estar disposto a pagar o valor nominal do título – se houver desconto, melhor; mas este não é o ponto – sem pensar na possível desvalorização que o título possa ter na hora da venda.

Parece uma decisão insensata, do ponto de vista financeiro, mas ela, decididamente, não o é do ponto de vista de quem quer viver uma vida melhor. Vou utilizar essa expressão para designar o meu modo de vida daqui para frente. A partir de hoje vou me basear sempre no valor de face para lidar com as situações com as quais eu vier a me confrontar. Não vou me preocupar com possíveis ágios ou deságios, principalmente os pouco prováveis e, muito menos, os imaginários. Já constatei que me preocupo demais com as possíveis conseqüências ruins ou boas (ágios ou deságios) das minhas decisões ou das coisas que acontecem ao meu redor e, a partir de agora, vou procurar me basear unicamente no seu valor de face, ou seja, na realidade que se apresenta pura, simples e cristalina, sem a deturpação do julgamento subjetivo complexo e muitas vezes cauteloso demais ou até preconceituoso. Chega de teorias de conspiração! Chega de pensar no que pode estar por trás de um evento que ocorreu, de um ato observado ou de uma notícia recebida! Eles devem ser absorvidos como aparentam ser, sem por nem tirar nada.

É evidente que é preciso avaliar com objetividade a importância das situações e as reais possibilidades de que consequências ruins venham a se concretizar. Mas é bom sempre ter em mente que, em geral, tais consequências não são importantes ou não são prováveis. Nesses casos nos preocupamos à toa. Quando se trata de justiça, há um princípio segundo o qual ninguém deve ser julgado culpado até prova em contrário. Sugiro estender esse princípio para as situações do dia-a-dia: “nenhuma situação que carregue alguma ameaça deve nos preocupar até que seja demonstrada a sua real importância e plausibilidade”. Portanto, antes de começar a se preocupar gaste um tempo para avaliar se a ameaça merece a preocupação. Enquanto isso, pague apenas o valor de face.

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Alguns episódios recentes seriam facilmente absorvidos se tivéssemos pagado por eles o simples valor de face. Falo, por exemplo, da ação dos “Black blocs”, que poderia ter sido entendida desde o princípio como puro vandalismo, sem qualquer causa mais nobre por trás. Outro exemplo é o da reivindicação, por gente famosa, de autorização da sua biografia, que, em seu valor de face, não passa de uma queixa de que outros possam ganhar com a sua história. Mais um exemplo é o da espionagem nas comunicações que, enquanto não for provado que se trata de uma real ameaça à privacidade do indivíduo, deve ser entendida como um velho problema entre governos que teve o seu auge durante a guerra fria.

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5 comentários sobre “Só compro pelo valor de face

  1. Amigo, isso mesmo! o valor de face! Outro dia, uma amiga me disse: viver cada dia, o presente. e não viver o presente pensando na consequência. Agora, vc vem ai com o mesmo sentido: Valor de face. É de fato um grande alívio! E como disse outro amigo: cada dia tem seu santo, e todo santo tem seu dia de festa! Não atropele e nem queira festejar todos ao mesmo tempo. Gde abs. Cada dia mais, como disse o Nilson, acima, “comentarista do mundo”.

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