Autobiografia

A minha história, assim como a de incontáveis amigos meus, começa há 13,7 bilhões de anos num evento memorável. Vou tentar contá-la a vocês não sem antes pedir desculpas por possíveis esquecimentos ou troca de alguns fatos. É bem possível que a minha memória tenha me traído algumas vezes nesse período de tempo.

Os curtos primeiros 300 mil anos não contam, pois deles eu não tenho lembranças nítidas, a não ser da sensação desconfortável de estar aprisionado em um espaço limitado, escuro e muito quente. Mas então, como num passe de mágica, tudo clareou e fomos, eu e meus amigos, lançados ao espaço que se abria solene diante de nós. Fomos expelidos com velocidades incríveis em todas as direções. Nós éramos muito rápidos, pois não tínhamos massa nenhuma e assim podíamos viajar à velocidade da luz – uma redundância, pois, sendo nós fótons, aquela era a nossa própria velocidade.

É incrível como ainda hoje esse momento pode ser registrado por instrumentos que conseguem captar o que se convencionou chamar de radiação cósmica de fundo (CMB – Cosmic Microwave Background). Se adequadamente ampliada, essa fotografia do passado pode até revelar a minha cara risonha no meio dos meus amigos.

Começava a minha infância. E que infância feliz! Viajávamos para lá e para cá, brincando de perseguir os limites do espaço, e nos divertíamos vendo que essa tarefa era sempre frustrada porque o espaço aumentava mais rápido do que nós podíamos viajar. Ríamos muito de nossos amigos pesadões – os prótons, nêutrons, elétrons e outros – que não conseguiam nos acompanhar. Eles diziam que a disputa não era justa porque os terríveis bósons de Higgs os mantinham presos em suas teias que os deixavam pesados e lentos. Ah, os bósons de Higgs! Como nos divertíamos passando pelas suas teias sem ser apanhados! “Algum dia nós pegamos vocês, seus pestinhas!”, eles diziam, ameaçadores.

Essa infância de total liberdade durou centenas de milhares de anos, até chegar a fase da puberdade e com ela o momento do primeiro encontro. O mundo estava super-povoado de partículas, todas num ir e vir a velocidades incríveis, e as colisões eram inevitáveis. Foi assim que uma partícula pesada – nem percebi qual delas – cruzou o meu caminho e bummm! Foi uma troca de energia e tanto e, pela primeira vez, senti a incrível experiência de me transformar em uma partícula com massa e carga elétrica. Como era fascinante essa nova sensação de ser atraído por outras partículas, especialmente as de carga elétrica oposta! A puberdade trouxe outros encontros com partículas e anti-partículas e com eles eu me transformei várias vezes, ora em novas partículas pesadas, ora de volta à forma de fóton, ainda vivendo uma vida livre, de puro deslumbramento.

Mas chega um momento em que temos que definir um objetivo e nos preparar para alcançá-lo no futuro. Assim, chegou a minha hora de assumir responsabilidades depois de passados cerca de um bilhão de anos do meu nascimento. O meu destino, agora como um próton livre, parecia já estar traçado. É incrível como as partículas pesadas têm a tendência de se juntar e isso me faz lembrar da máxima segundo a qual “a união faz a força” – a força de gravidade, no caso -, quanto mais unidos, maior era a força que exercíamos sobre as outras partículas. Foi dessa tendência que criamos o nosso objetivo: vamos nos juntar e formar estrelas! Começava a fase da juventude.

A criação da nossa primeira estrela foi um aprendizado muito valioso. Comecei fazendo parte dos elementos mais leves, hidrogênio e hélio, nas zonas mais tempestuosas do núcleo da estrela. (Pena que ainda não existia, na época, o adicional de periculosidade!) Depois passei para os elementos mais pesados, nas camadas mais externas. Cada uma dessas passagens reforçava em mim a ideia de que a vida era uma contínua transformação e que a maior delas ainda estava por vir. Ao terminar meu trabalho em uma estrela eu era expelido numa onda de radiação, de novo para o espaço cósmico, onde eu me reunia com novos amigos para formar novas estrelas. Depois de algum tempo produzindo novas estrelas, finalmente eu estava pronto para a última missão. Nesse momento, eu já era um adulto com mais de 10 bilhões de anos.

Numa dessas excursões pelo espaço – na forma de próton, se não me engano – peguei carona na cauda de um cometa que estava em rota de colisão com um pequeno planeta rochoso de uma estrela chamada Sol. (Sei que isto soa meio melodramático para vocês que conhecem bem esse lugar, mas não para os demais que poderão ter conhecimento dessa história.) Começava a minha fase de maturidade. A minha experiência com as estrelas foi fundamental para eu me juntar, ainda no cometa, a uma molécula de água. Depois da colisão com a Terra eu logo passei para uma molécula orgânica simples e finalmente para uma molécula complexa de um aminoácido. O trabalho seguinte foi o maior projeto dessa minha jornada: contribuí para a criação da primeira célula que apareceu no planeta. Estava criada a vida. Isto foi há apenas alguns bilhões de anos e a partir daí os eventos se sucederam de uma forma rápida e imprevisível, num processo que vocês bem conhecem, chamado de seleção natural e evolução das espécies. Àqueles que não conhecem bem esta parte da história sugiro rever o texto “A grande história da evolução”.

Para completar essa minha história, hoje sou parte desse organismo complexo chamado ser humano; em particular, deste que está escrevendo este texto. Assim como eu, buzilhões de outros amigos foram engajados nessa mesma tarefa de compor um ser vivo, depois de terem percorrido uma jornada parecida com a minha e que durou, até aqui, 13,7 bilhões de anos. Puxa, como o tempo passa rápido! Parece que o Big Bang aconteceu ontem!

Os seres humanos não dizem que vieram da poeira das estrelas? Pois eu sou o testemunho dessa história fascinante! A beleza desse roteiro me faz crer que o que está por vir pode ser ainda mais incrível. De que outros seres vivos, ainda mais evoluídos do que os humanos, vou fazer parte? Quando será o fim dessa minha jornada?

Com a palavra o arquiteto dessa obra brilhante! Ele é o cara!

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8 comentários sobre “Autobiografia

  1. Dias,
    Li e gostei muito.Voce escreve muito bem e desta vez entendi tudo na primeira leitura.Continue escrevendo pois e muito bomter os seus textos para nos enriquecer um pouco mais.
    Abraço.

  2. Ol Dias

    Parabns pelo artigo. A sua, a nossa jornada, acredito que no ter fim! A gente vai se encontrando…como diria o Cara!

    Um abrao

    Aristides

    _____

  3. Inclível, fascinante… Gostar é pouco, mas você colocou tudo numa forma em que também puce me identificar como sendo um de seus amigos, embora um pouco mais velho, mas dando as minhas cabeçadas e encontróes pela vida e que resultaram muitos de nós mesmos. Parabéns Dias, e sei que vai continuar, pois tem muita garra e sabedodia é o que não falta em sua modesta pessoa. Abraços!

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