Viver um sonho

Há pessoas – talvez a maioria – que não gostam de ficção; preferem escrever, ler ou falar sobre assuntos que têm alguma relação com o nosso cotidiano. Mesmo em se tratando de entretenimento, como leitura, cinema, televisão, é possível que a grande maioria prefira as histórias que são mais plausíveis do que as fantasiosas. O tema que foge muito da realidade pode deixar o leitor ou espectador desinteressado a ponto de fazê-lo desistir de acompanhar a história. Entendo que na ficção é necessário que haja uma linha, por mais tênue que seja, que dê um caráter realista ao enredo. (Mas posso estar errado porque ainda não entendi o que dá credibilidade às histórias de vampiro, tão em moda hoje.)

As histórias de ficção científica seguem o mesmo critério. Elas têm que estar baseadas em alguma teoria, ainda que muito especulativa, para atrair a atenção do leitor ou do espectador. É verdade que o grande público nem sempre é capaz de distinguir uma fantasia de uma teoria científica em todas as histórias que lê ou assiste, mas cada um faz o seu julgamento de acordo com os seus próprios conhecimentos e aprecia ou não a história de acordo com esse julgamento. Não é a toa que as histórias de maior sucesso são aquelas que tratam de temas científicos de maior popularidade como clonagem, viagens no tempo, seres extraterrestres etc. Elas fazem referências aos resultados científicos (e os fantasiam, claro!) que são amplamente divulgados na mídia e são, portanto, familiares à grande parte da população.

Eu gosto muito de ficção científica, mas, talvez, por outra razão. Aprendi, com a própria ciência, que a realidade é algo muito pouco palpável e até mesmo subjetiva. O que entendemos como realidade é aquilo que nossa mente – auxiliada por nossos sentidos – nos induz a perceber como tal. É curioso dizer que “não temos ideia de como o mundo realmente seja sem as lentes da nossa mente” (ora, sem a mente não teríamos ideia de nada!), mas vocês entendem do que estou falando. O mundo, para cada um de nós, é aquilo que temos em nossa cabeça e, sem medo de estar enganados, achamos que todos o percebem do mesmo modo, muito embora não tenhamos nenhuma prova definitiva – e talvez nunca venhamos a ter – de que todos veem a realidade da mesma forma. Uma pergunta antiga traduz bem essa dúvida cruel: “Será que a percepção da cor vermelha que eu tenho é a mesma que você tem?”

A ciência não tem uma mente, mas, assim como nós, “enxerga” o mundo por lentes próprias. Suas lentes são as ferramentas – a matemática é uma delas – que usa para decifrar as leis naturais. Por mais precisas que sejam as teorias produzidas por essas ferramentas para decifrar as leis da natureza, os cientistas sabem que elas jamais alcançarão o seu objetivo final, a não ser que acreditemos que as leis tenham sido criadas para que as decifremos com as nossas próprias ferramentas. Acreditar nisto seria acreditar numa espécie de teoria da conspiração (no bom sentido). Mas, enfim, pode ser que seja este o caso! Quem sabe? Outros ainda perguntam se tais leis realmente existem ou se o modo como a natureza se apresenta para nós não passaria de uma manifestação apenas localizada e temporária. Neste caso, a natureza seria caótica, imprevisível e, consequentemente, inescrutável por qualquer método científico?

O fato é que a natureza mostra-se rebelde em revelar os seus segredos e nós – obscurecidos pelo filtro da nossa mente e pelo limitado poder das ferramentas da ciência – só podemos conjecturar sobre o que seja a realidade. Isso tudo torna muito tênue a linha divisória que separa a realidade da ficção e, para mim, esta é a principal razão porque a ficção científica é tão atraente. Não é preciso muito esforço para adentrar a terra do “faz-de-conta” onde tudo é válido e as respostas para os mistérios do mundo podem ser encontradas com facilidade. E elas mudam também com facilidade!

Se a realidade é aquilo que percebemos em nossa mente, então uma ficção não poderá ser diferenciada da realidade, ainda que somente enquanto estivermos “vivendo” a situação imaginada. É tudo uma questão de acreditar naquilo que imaginamos. “Viver um sonho” é o que sempre perseguimos em nossa curta vida e a ficção é o caminho mais curto até esse objetivo.

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3 comentários sobre “Viver um sonho

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