Os esmagadores

As formigas operárias interromperam as suas tarefas instantaneamente – como se um sinal tivesse sido enviado a todas elas à velocidade da luz – e agora caminhavam de volta para o formigueiro para uma reunião com a rainha. Não que elas precisassem estar fisicamente junto à líder, pois a comunicação entre elas era perfeita e não havia a necessidade da proximidade física. Mas era um momento especial de reflexão e o ajuntamento tinha um significado próprio. Era um daqueles momentos em que elas se reuniam para refletir sobre seu futuro e reforçar a crença na importância e na necessidade de seus papéis para a sobrevivência da espécie.

A rainha não precisava falar para se fazer entender. A comunicação entre rainha e operárias era feita em múltiplas vias sem necessidade da emissão de sons para que as mensagens fluíssem entre as formigas, numa rede de comunicação de tantos nós quanto era o número de formigas. Se essa comunicação fosse feita por meio de sons seria inimaginável a balbúrdia que isso causaria no recinto. Tudo isso, graças ao milagre do feromônio.

A propósito, era exatamente sobre isso que a rainha gostava de refletir junto com as suas operárias. Refletir sobre como a sua espécie tinha chegado a um grau de evolução tão avançado quando comparado ao das outras espécies da Terra, incluindo, por que não, os esmagadores, seus grandes predadores. Esses, nem sequer eram os mais próximos delas na escala dos seres mais evoluídos.

Aliás, era improvável que outra espécie tivesse desenvolvido a capacidade de olfato-consciência que as formigas desenvolveram ao longo de milhões de anos de evolução. Era essa olfato-consciência, manifestada por meio de um olfato extremamente desenvolvido em um meio rico em feromônio, produzido pela própria formiga, que dava aos indivíduos da sua espécie a capacidade de sentir o coletivo mais do que o individual. Que outra espécie possuía essa capacidade? Certamente nenhuma.

Os esmagadores, refletiam elas, são uma ameaça real à nossa sobrevivência. Por essa razão nós os temos estudado muito bem. Eles são bons “fazedores” de coisas, mas não têm uma consciência bem desenvolvida. Constroem moradias gigantescas, veículos e artefatos incríveis, mas não sabem como utilizá-los de forma eficiente. Fazem tudo por instinto. Um instinto de vaidade que os impulsiona a fazer coisas para se vangloriar delas. São individualistas; não têm a noção do coletivo que caracteriza uma consciência evoluída. O nosso mais próximo joão-de-barro não tem tanta capacidade de construção, mas tem, muito provavelmente, uma consciência mais desenvolvida do que os esmagadores.

Poderíamos deixar os esmagadores de lado e continuar a nossa vida – refletem elas – se eles não constituíssem uma ameaça para nós. Mas essa ameaça está sempre constante. Estaríamos contentes se a ameaça fosse apenas a de sermos esmagados constantemente por eles – em especial pelos pequeninos daquela espécie -, mas ela não se restringe a isso. Temos sofrido baixas com as suas armas de destruição em massa que frequentemente usam contra as nossas comunidades. São armas químicas, algumas disfarçadas em alimentos e outras, puro veneno, sem nenhum disfarce.

Não há como vencer a força bruta dos esmagadores – as formigas continuam em sua reflexão – e isso já foi constatado pelas inúmeras derrotas que sofremos em nossas incursões tímidas ao seu habitat. Melhor estratégia é sair do alcance deles, enveredando cada vez mais fundo no solo, onde eles não podem nos alcançar. Afinal de contas, a continuar nesse ritmo, a superfície do planeta está condenada ao desolamento por culpa dos esmagadores. Em tempos futuros, com certeza, as formigas retornarão à superfície para restabelecer a esplendor do planeta. Não há dúvidas que somos a espécie escolhida, refletem, finalmente, com grande orgulho.

Naquele momento, se a manifestação delas pudesse ser ouvida pelos esmagadores, estes ouviriam um coro de milhares de vozes entoando o bordão: Cavem fundo! Cavem fundo!

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2 comentários sobre “Os esmagadores

  1. Olá Caco
    Gostei de receber noticias suas, depois de uma longa ausencia. Estava lendo, este texto e viajei ….parece que estava vendo um filme , historia muito boa, …vamos vender para a Disney..!!!!.
    Seus textos estão ficando cada vez melhor….continue….abs alice

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