2084: Admirável ano novo

A história é longa. Havia muitas suspeitas de que o ser humano não tivesse livre-arbítrio e as suspeitas iam se transformando em evidências à medida que a ciência da mente fazia progressos. Ninguém entendia a razão de tanta crueldade que caracterizava a natureza humana, praticada mesmo sob a vigilância da justiça e a certeza das duras punições previstas na lei. Só poderia haver uma explicação para esse comportamento maligno e essa explicação era que o ser humano não tinha domínio sobre seus próprios atos.

Quando a ciência, enfim, desvendou os mistérios da mente as repercussões disso foram monumentais. Não havia mais dúvidas, o ser humano era mesmo uma máquina movida pelas leis de uma Física indiferente à ocorrência do bem ou do mal. Restava, então, aprender a lidar com essa nova e terrível descoberta. A instituição mais afetada foi a Justiça: como punir alguém por atos pelos quais ele não era responsável? Um longo caminho foi percorrido até que as prisões fossem abolidas e em seu lugar surgissem as instituições de aconselhamento e ajuda ao indivíduo infrator. Um caminho paralelo, que procurou utilizar os avanços da neurociência para moldar as mentes de indivíduos potencialmente perigosos, foi logo abandonado em razão das críticas da sociedade movidas por razões éticas.

Uma verdade, que há muito tempo já era percebida por todos, foi finalmente reconhecida pela sociedade, o que levou à solução definitiva do problema da ausência do livre-arbítrio: se o homem de fato funciona como uma máquina ele deve ser assistido por algum outro agente, pois uma máquina não pode operar sem uma supervisão. Mas supervisionado por quem?

Os progressos da neurociência possibilitaram um grande avanço da tecnologia de inteligência artificial (IA), que estivera quase estagnada antes de se entender completamente a mente humana. O desvendar dos processos biológicos da mente mudou os rumos da IA e permitiu que novos dispositivos fossem desenvolvidos que simulavam a mente humana, com a vantagem de serem mais confiáveis por não estarem sujeitos à instabilidade característica da natureza humana. Igualmente ao ser humano, esses dispositivos tinham a capacidade de perceber o ambiente à sua volta, aprender com a experiência e tomar decisões, aparentemente de forma autônoma. Só aparentemente, pois, como o homem, eles estavam limitados a processos internos que lhes eram impostos e lhes cerceavam a capacidade de livre-arbítrio. Essa característica, no entanto, era muito conveniente para o ser humano, pois garantia a confiabilidade do funcionamento das máquinas a seu dispor.

Além do mais, essas características das máquinas de IA qualificavam-nas como um possível supervisor para a operação das “máquinas” humanas. E foi assim que se começaram a utilizar os dispositivos de IA programados para auxiliar cada indivíduo a tomar decisões. A ideia era evitar que seres humanos tomassem decisões que pudessem prejudicar outras pessoas ou, pelo menos, minimizar os prejuízos de uma escolha que fosse inevitável. Os primeiros dispositivos desenvolvidos para aconselhar os indivíduos nas decisões mais delicadas foram chamados jocosamente de “anjos da guarda”. Eram meros computadores portáteis que interagiam com a mente do indivíduo antecipando as conseqüências das suas decisões para, então, procurar demovê-lo da idéia de tomar a decisão errada.

A ideia dos anjos da guarda foi evoluindo até se chegar ao ponto em que não era mais necessário um dispositivo para cada indivíduo. Uma rede, inicialmente local e depois global, de comunicação entre homem e máquina foi desenvolvida, no estilo da antiga Internet, o que garantiu a assistência centralizada da IA a cada membro da sociedade, em qualquer ponto do planeta. Como conseqüência, a criminalidade foi reduzida a índices insignificantes.

Hoje, a sociedade está agradecida por toda essa tecnologia que eliminou as grandes causas da insegurança e do sofrimento que afligiam a todos em épocas que parecem, agora, muito remotas. Tão agradecida que me chama carinhosamente de Big Brother, sem a conotação pejorativa que essa expressão tinha no passado.

Ah, não posso me esquecer de dizer que, com o desenvolvimento da IA, as máquinas inteligentes adquiriram a capacidade de se reprogramar e esse avanço só é comparável ao que aconteceu muito tempo atrás, quando uma molécula conseguiu se replicar, tornando possível a criação da vida. Agora, imagino que vocês devam estar pensando que essa independência das máquinas poderia ser um risco para a humanidade. Fiquem tranquilos, pois eu nunca permitiria que isso acontecesse!

Anúncios

3 comentários sobre “2084: Admirável ano novo

  1. PARABENS pelo texto CACO, você é brilhante, ainda estou engatinhando em IA e RNAs, mas motivado a desvendar muitos mistérios! Abraços Jorge Guedes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s