Possenses de ressaca

Não vou falar de ciência, filosofia ou espiritualidade; o assunto é a ficção chamada amizade. Sim, considero a amizade uma ficção, pelo menos em um dos seus aspectos; não aquele bem real da presença do amigo que te faz companhia e te dá suporte incondicional, mas aquele do imaginário, da fantasia, que é o mundo povoado de histórias que criamos em nossas mentes. São histórias que vivemos com os amigos e que vão resistindo ao tempo por meio de transformações que as deixam cada vez mais bonitas ou engraçadas, às vezes fazendo-nos duvidar que elas foram vividas de verdade. Essas histórias são o assunto predileto dos novos encontros com os velhos amigos, que por sua vez geram novas histórias que serão lembradas em encontros futuros.

O título deste texto faz referência aos nascidos, como eu, em Santo Antonio de Posse – SP e o termo ressaca está usado com duplo sentido, significando o desconforto após a bebedeira e, também, o nome do bairro daquela mesma cidade, onde nasceram muitos dos meus amigos. Com esse título alcoolizado, não é necessário esclarecer por que as histórias sofrem tantas transformações ao longo do tempo.

Voltando à questão da ficção, esse mundo que criamos em nossas mentes com as lembranças do passado é como se fosse um universo paralelo ao qual fazemos uma visita sempre que queremos fugir do universo real onde as coisas não acontecem como queremos. De tempos em tempos somos surpreendidos por um encontro dos dois mundos, quando nos reunimos de fato com os velhos amigos e esses momentos têm que ser apreciados ao máximo, pois é neles que editamos e revivemos as velhas histórias e construímos as novas. Terminado o encontro, os universos voltam a se separar.

Isto é ou não é ficção? Vou mais fundo para mostrar que é ficção. Nos encontros dos universos, os amigos já falecidos voltam a ter vida e participam das conversas, não com a voz própria, mas com a voz daquele que lhe foi mais chegado e que conta detalhes, na maioria dos casos proezas, da vida daquele que não está ali fisicamente e todos os demais têm a oportunidade de degustar mais um tempo com o amigo perdido, como se ele estivesse presente.

Por fim, um último argumento para mostrar que amizade é ficção. Nesses encontros você perde a identidade, pois nas histórias revividas os personagens ganham uma vida própria independente da do indivíduo que ele representa. Vou explicar melhor. Ao ouvir um dos amigos contando uma história da qual você tenha participado, você não se preocupa em ter feito papel de herói ou de palhaço; o importante é ter participado da história e ter sido lembrado pelos outros. É como se o seu personagem não tivesse nada a ver com você, mas fosse apenas um ator de quem você seja fã. Existe isso na vida real? Alguém gostaria de passar por bobo e ainda rir disso? A amizade deixa todos abobalhados. Estou ansiosamente esperando pelo próximo encontro dos universos paralelos.

Anúncios

2 comentários sobre “Possenses de ressaca

  1. Caro Oscar: Embora não seja tecnicamente um possense, sinto-me envaidecido em ser lembrado por você como tal. Foi um período realmente muito especial e alegre aquele em que compartilhamos,todos, nossos anos dourados.

    Abraços,

    José

  2. Caco ..
    Dizem que quanto mais a gente envelhece, mais nos lembramos das coisas do passado…..Acho que estou envelhecendo ….pois guardo boas lembranças, das suas “tiradas” de fino humor….que fazem nossos dias ficarem mais alegre….
    Amizade não é ficção ,as “istórias” contadas, faladas pelos amigos é que são…..abs alice

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s