O sexo e o medo da morte

O leitor que acha que este texto irá tratar da AIDS ou coisa parecida ficará decepcionado. O assunto é a evolução das espécies. Os instintos de sobrevivência e de reprodução guiaram a evolução dos animais e produziram essa diversidade fantástica de seres vivos que culminou na espécie humana. Esses instintos, no entanto, são também uma fonte de problemas para a sociedade. Assassinatos, violência, estupros, pedofilia, tráfico de drogas e outras anomalias infestam a sociedade, provocados pela força do sexo e da sobrevivência.

Quero especular aqui sobre um cenário muito difícil de ser imaginado, o qual, provavelmente, já foi estudado por muitos pesquisadores das áreas de humanas e biológicas. (Confesso que não li nada a esse respeito.) Falo de imaginar uma situação, no futuro, em que esses efeitos colaterais causados pelos instintos citados deixariam de existir completamente. Ou, dito de outro modo, imaginar um cenário em que os instintos do sexo e da sobrevivência deixariam de ser relevantes na vida do ser humano.

A explicação para a origem deles é simples (graças a Darwin) e está no fato de que as espécies viviam ameaçadas por um ambiente hostil caracterizado por predadores, escassez de recursos, acidentes naturais etc. Aquelas que possuíam os meios mais eficientes para sobreviver e reproduzir prosperaram, enquanto que as menos adaptadas às condições hostis se extinguiram. A capacidade de deixar descendentes e o medo da morte foram os ingredientes que levaram as espécies a prosperar. Sobreviver e deixar descendentes eram a ordem do dia. Enquanto aquelas ameaças existissem, esses instintos seriam estimulados. Como resultado disso, as espécies que existem hoje – ou seja, as vencedoras até aqui na luta pela sobrevivência – têm uma forte inclinação para o sexo e a sobrevivência.

E se aquelas ameaças, por alguma razão, deixassem de existir? Isto seria difícil de imaginar até que surgisse a espécie humana e, com ela, as transformações feitas de modo consciente (consciente, aqui, não significa de forma conscienciosa ou correta, mas sim de forma deliberada e com conhecimento das consequências) em contraposição às transformações causadas pela natureza. O homem passou a competir com a natureza no processo de seleção das espécies.

A evolução das espécies passou a ter a participação efetiva do homem e, descontados os episódios em que a natureza, com um simples soluço, possa destruir tudo que o homem criou, este estará cada vez mais no controle do processo evolutivo. Ele tem o poder de extinguir espécies, criar outras e modificar tudo com a força do seu conhecimento em ciências, de um modo geral, e em biologia, em especial. Num cenário otimista, a tecnologia poderá libertar o homem das ameaças de extinção e tornar a reprodução um processo controlado, num nível tal que, depois de muitas e muitas gerações, sexo e medo da morte não sejam mais fundamentais.

O que virá então? Certamente uma sociedade com hábitos e práticas muito diferentes, difícil de visualizar. A ausência do medo da morte poderá trazer um novo efeito colateral: a perda da vida por meios obtusos, como o suicídio e a eutanásia, ou por motivos fúteis, como a prática de atividades de risco. A pergunta que fica é: Que outros instintos viriam substituir o sexo e o medo da morte? Seria provável que o medo da morte renascesse para se contrapor ao efeito colateral acima, ou um outro novo instinto apareceria para por as coisas no lugar? O espiritual, quem sabe? Quem sobreviver verá.

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4 comentários sobre “O sexo e o medo da morte

  1. Caro Oscar: É sempre agradável ler seus textos pois, no esforço para melhor entendê-los, algumas passagens praticamente apagadas da memória, retornam de forma surpreendente. Vou me utilizar de uma delas, para um exercício de imaginação no cenário otimista que você idealizou, mas que foge um pouco às suas considerações finais.
    Faz tempo, assisti a um filme em que o ato sexual era praticado pelo toque dos dedos e completado pela ingestão de uma pílula. Do filme, só me lembrei deste detalhe. Naquela ocasião achei absurdo mas, hoje, não consideraria como tal.
    Pode parecer estranho, porém, a questão principal é saber se essa forma não tradicional de sexo, satisfaz a todas as necessidades físicas e emocionais do casal.
    Se ambos forem constituídos de matéria cujos elementos devem reagir de forma previamente determinada pela ciência, visando o bem estar físico-mental comum, esse tipo de prática sexual seria a solução de vários problemas, desde o controle otimizado da reprodução até o fim da violência sexual, só para simplificar.
    A questão da morte, se interliga à anterior, na medida que, em futuro distante – ou surpreendentemente próximo, tudo é possível – poderemos morrer e renascer diversas vezes. Quem nunca pensou nesta possibilidade? (O segredo está na pílula).
    Se as condições de vida, de forma individual ou em sociedade se tornarem tais que, naquele espaço de tempo não mais valeria a pena viver, surgiria a opção de esperar (morto) por algumas décadas. Ou então, só reviver sob condições pré-estabelecidas. Entretanto, não existirão garantias absolutas neste tipo de negócio e, inclusive, “morrer em definitivo” será possível, se as ditas condições ideais de retorno não forem satisfeitas. Será um risco calculado, mas que valeria a pena. Neste caso, a morte, assim considerada, se tornaria um aliado e não mais um inimigo a temer.

    • Caro José,
      Você foi fundo com a sua imaginação. Pensando no que você falou, imagino que se o sexo algum dia deixar de ser um impulso natural isto não será por iniciativa do homem. O sexo poderá se transformar (ou já se transformou) num ato de puro prazer, sem finalidade reprodutiva. A reprodução poderá ser feita por meios artificiais. Assim, não acredito que o homem vá procurar meios de se desfazer do desejo sexual (e como faria isso?) substituindo-o por outras práticas (como no filme que você viu). Se o desejo sexual for atenuado até desaparecer, isto poderá ser causado pela variabilidade genética que não mais seria selecionada pelo critério do sexo carnal, mas sim do sexo em laboratório. Assim, um indivíduo que não teria chances de perenizar os seus genes pelo simples desinteresse em procurar parceiras, poderá fazê-lo artificialmente e seus descendentes herdariam essas suas características (de não ser muito chegado ao outro sexo) e espalhariam os seus genes pelo mundo por meio de seus descendentes. Depois de muitas gerações, seria possível se chegar a uma população sem desejo sexual. Veja que, se esse processo levar também à incapacidade de produzir espermatozoides e óvulos, então seria o fim da espécie. Quanto às suas especulações sobre a morte, tudo está em aberto porque o terreno é mais pantanoso. Vejo que a opção pelo espiritual não o tocou muito, certo?
      Um grande abraço.
      Oscar

      • Caro Oscar: Se todas nossas sensações físicas são consequências de reações químicas, suponho que não haveria propriamente, a atenuação do desejo sexual, simplesmente uma alternativa da forma em como alcançá-lo. Observe que atualmente, não só a AIDS, mas também a pornografia, associada à evolução dos processos de comunicação, alterou hábitos sexuais de muita gente. Por outro lado, hoje o tradicional casamento não é mais o objetivo principal de homens e mulheres que colocam a carreira profissional e o destaque social em primeiro plano. Imagine agora que, no futuro a ciência tenha condições de oferecer uma alternativa vantajosa a toda uma sociedade com melhores resultados que em um processo aleatório de geração. É neste cenário, em que o homem, cada vez mais dependente da tecnologia, terá um dia que se defrontar com a evolução dos hábitos sexuais. É evidente que tais especulações seriam válidas para sociedades bem diferente das atuais, mais homogêneas e bem menos populosas. Talvez tenha sido esse o tema do tal filme que nossas considerações trouxeram à tona.

        Abraços,

        José

  2. Caco, mais uma brilhante reflexão! Penso que se trata da redescoberta do “paraíso”, até que num futuro distante violemos algum outro código e percamos esses novos privilégios reconquistados e sejamos novamente “castigados”. Mas também preciso acrescentar, e acho que já comentei sobre isso num passado recente com você, e que, baseado na minha crença, a vida é um ciclo que modula “ser” e “existir” (enquanto encarnados, existimos / enquanto desencarnados, eternamente somos). O medo reside em passarmos de um estágio a outro (morte e nascimento e vice-versa) pelo fato do “desconhecido” e pelo processo natural do esquecimento, que nos torna menos vulnerável na existência, e pela possibilidade de sempre estar com a nossa obra de vida no início, com possibilidades de novas descobertas e diferentes pontos de vista. Quanto ao sexo e a continuidade da espécie, penso que sempre acharemos uma solução, pois é parte essencial da nossa condição. Como sempre existiu algo superior aos nossos desejos resta saber de uma coisa: quem estará no controle?

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