A partícula de Deus

         O mundo à nossa volta é deveras fascinante. Para qualquer lado que olhemos ficamos intrigados com o que vemos. É comum pensarmos: Como surgiu tudo isso? O que é responsável por essa ordem que norteia todas as manifestações da natureza? Conseguiremos um dia explicar a mecânica do nosso mundo?

        Os cientistas são seres privilegiados porque conseguem ir a fundo nessas questões, ou melhor, levantar questões mais profundas e objetivas do que essas. Nós, por outro lado, nos contentamos em contemplar o universo e, vez ou outra, fazer uma pergunta que logo se revela ingênua diante do vasto conhecimento científico já acumulado sobre o mundo em que vivemos. Mas não poderia ser de outra forma já que esse conhecimento não é totalmente compreendido por nós leigos.

         Ouve-se dizer que o bóson de Higgs é a última partícula que falta para os físicos completarem o Modelo Padrão da Física de Partículas. Essa partícula especial explicaria as massas que todas as demais partículas apresentam. A interação do bóson de Higgs com outra partícula seria a responsável por fazer com que esta última tenha uma massa. A intensidade da interação definiria o valor da massa, mais leve ou mais pesada. Como todas as outras propriedades da matéria e energia (carga elétrica, forças etc) já estão explicadas pelas partículas já conhecidas, o bóson de Higgs concluiria a explicação de tudo aquilo que observamos na natureza. Daí ele ter sido apelidado de partícula de Deus, por alguns cientistas.

         Para nós, leigos, parece um exagero chamar tal partícula de partícula de Deus, com tanta coisa ainda deixada por explicar. Uma verdadeira partícula de Deus deveria explicar não só a massa das coisas, mas também o espaço que essas coisas ocupam. Do que é feito o espaço que as partículas ocupam e por onde transitam? Se o universo está em expansão, o que teria existido no espaço agora ocupado por ele? Algo deve ter sido responsável por criar esse espaço. Este parece ser um trabalho talhado para a partícula de Deus, tanto quanto explicar a massa das partículas.

         E o que dizer do tempo, esse fenômeno incrível que ninguém ainda conseguiu explicar? Parece que ele surgiu juntamente com a criação do universo (e do espaço). E como seria antes de existir o tempo, se é que podemos aqui utilizar o termo “antes”? Em algum “momento” o tempo foi criado e isso só poderia ter sido outra obra da partícula de Deus. De sua interação com outras partículas o tempo começou a fluir, assim como o espaço surgiu e as partículas adquiriram substância.

         Aí sim, o Modelo estaria completo. No instante da criação, a partícula de Deus – supostamente, ela deve ter sido a primeira coisa a vir ao mundo – teria feito todo o trabalho de criar o tempo, o espaço e as coisas contidas nele. Este sim, um trabalho digno de uma partícula de Deus!

         Mas ainda estaria faltando alguma coisa. Como a matéria inanimada teria adquirido vida? Como as partículas teriam aprendido a se juntar em estruturas mais complexas até ganhar a capacidade de fazer cópias de si mesmas e criar esse sistema incrível chamado de ser vivo? Que ingrediente seria esse chamado de vida? A partícula de Deus poderia ter algo a ver com isso? Já não estamos mais falando do mundo microscópico da física de partículas, mas quem sabe não haveria alguma relação entre as coisas? A vida não poderia ter sido uma manifestação da interação especial da partícula de Deus com as demais partículas, só percebida no nível macroscópico, muito depois que o tempo, o espaço e as partículas passaram a existir?

         Sei que muitos leigos ainda não ficariam satisfeitos com essas especulações e acrescentariam uma última. Uma partícula de Deus que se preze teria que ter a capacidade de criar em (ou associar a) um ser vivo alguma coisa que o diferenciasse de tudo o resto que existe no mundo: uma alma. Quer seja chamada de alma ou de consciência, sabe-se que essa entidade ainda não é bem compreendida pela ciência. É notável como uma reunião de partículas, dotadas apenas de propriedades físicas como massa, carga elétrica, spin e outras, manifeste pensamentos e vontades e tome decisões por si própria visando um objetivo por ela mesma traçado. Poderia essa entidade incrível também ser uma manifestação da partícula de Deus? Difícil dizer. No entanto, se tal partícula, com todas as propriedades acima – de criar as massas, o espaço, o tempo, a vida e a consciência – fosse detectada, ela não só completaria o Modelo Padrão da Física de Partículas como também desvendaria os mais profundos mistérios da humanidade.

         Pena que tudo isto não passe de pura especulação de quem não conhece os meandros da ciência, mero exercício de formular aquelas questões ingênuas de que falei no início.

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