Cotas em branco e preto

         A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre as cotas raciais para as universidades não foi um evento multicolorido. Foi em branco e preto, sem brilho e sem lógica, mas com unanimidade. Parece que o Supremo não representa o povo brasileiro, pois do contrário a decisão não poderia ter sido unânime em favor da constitucionalidade das cotas. Ao menos algum juiz deveria ter votado contra para representar a imensa maioria da população que tem essa opinião. Mas não, todos votaram a favor como se o assunto não carregasse a menor polêmica. Sei que a decisão deve ter se baseado em alguma lógica que não é facilmente compreendida pelos pobres mortais. Assim, estou me esforçando para entender qual teria sido essa lógica.

        Identifiquei algumas possíveis elucubrações que os ministros podem ter usado. A primeira que me veio à mente foi que a decisão procurou resolver um problema grave das universidades brasileiras, especialmente das públicas, que é a falta de alunos. As classes estão muito vazias por falta de candidatos e isto pode ser constatado pelo pequeno número de candidatos por vaga nos vestibulares. Assim, as cotas vão ajudar a preencher essas vagas ociosas e os professores ficarão mais motivados em dar aulas para classes cheias, aumentando a qualidade do ensino.

       Outra possibilidade é de natureza mais estética. As classes de hoje estão muito uniformes, monocrômicas e monótonas, compostas exclusivamente de alunos branquelos. As cotas ajudarão a torná-las mais atraentes e multicoloridas, fazendo com que os professores se sintam mais motivados a dar aula. Por este raciocínio, novamente a qualidade do ensino universitário será beneficiada.

        Entretanto, pode ser que o problema que os ministros procuraram resolver tenha sido outro: a população do nosso país não está devidamente miscigenada, i.e., o Brasil é um país onde as raças não se misturam. Com as cotas, as diferentes raças se encontrarão na universidade, que é o local onde os adolescentes encontram os seus parceiros para formar as futuras famílias. Não haveria meio mais eficiente para estimular a miscigenação. Se esta tiver sido a razão, foi muito bem pensada.

        Mas pode ser que a razão tenha sido outra. Sabe-se que os candidatos às cotas são alunos que saíram, preponderantemente, das escolas públicas de ensino médio. Sabe-se, também, que a qualidade do ensino nessas escolas é semelhante àquela dos países mais desenvolvidos. Assim, esses detentores das cotas ajudarão a melhorar o nível das universidades estimulando os seus colegas egressos das escolas privadas, que não tiveram uma boa formação de base (tanto que grande parte deles teve até que passar pelos cursinhos onde, se sabe, o ensino é uma lástima).

        Por último, pensei numa alternativa que logo descartei porque não a achei muito convincente. É a de que os ministros procuraram ajudar aos candidatos não brancos a superar uma injustiça que sofreram no passado por não ter tido acesso a uma educação adequada. Descartei-a logo porque me pareceu óbvio que isso seria uma falsa ajuda – na verdade, seria um empecilho a mais na vida desses injustiçados. Os ministros, também, devem ter pensado nisso e seguramente deram seu voto pensando em uma ou mais das alternativas anteriores.

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Um comentário sobre “Cotas em branco e preto

  1. Caco, difícil discorrer sobre o tema. Nelson Rodrigues costumava dizer que “a unanimidade é burra”. Tendo fortemente a acreditar nisso. Colocou-se um ponto final numa frase inexistente. Tratou-se de forma superficial o que é abissal. Continuaremos distantes entre nós, diferentes e estranhos. Lamentável…

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