Eu sou aquele que ninguém mais é

(Este texto pretende ser uma introdução à Parte 3 do livro “Universo: achados e perdidos”.)      

       Enquanto escrevo este texto tenho certeza que ninguém mais está passando por esta mesma experiência. Alguém pode estar vivendo algo parecido, mas não a mesma coisa. Enquanto escrevo, pensamentos concorrentes vêm-me à cabeça e são rechaçados enquanto mantenho o foco na escrita. A cada palavra que escrevo, sou invadido por uma onda de pensamentos que não posso controlar mas que acabam se desvanecendo à medida em que não dou atenção a eles. São pensamentos originados de memórias recentes ou antigas trazidas à baila pela associação ao texto que escrevo, ou são pensamentos causados por sensações momentâneas produzidas por fenômenos internos ao meu organismo (uma dor, um mal estar, uma vontade de alguma coisa) ou vindos do exterior através dos meus sentidos (algo que acabo de ver ou ouvir ou cheirar). Eles estão aqui, indo e vindo, mas não me importo com eles. Continuo a focalizar o texto e – o que é mais importante – não me esqueço, em nenhum momento, de quem sou, quem são meus pais, minha esposa, meus filhos, meus amigos, onde moro. Todo esse conjunto de percepções tem um nome: eu. O que é que me faz identificar-me com essa pessoa que está no centro imaginário desse mundo?

         Isto tem a ver com o cérebro, a mente e a consciência humanos. Os próximos textos vão tratar dessas três entidades que estão na origem do que podemos chamar de natureza humana, i.e., aquilo que nos diferencia dos outros seres vivos. Os textos não têm a pretensão de definir essas entidades e nem mesmo de diferenciá-las, uma vez que até os especialistas têm dificuldades nessas tarefas. Ao invés disso, eles procuram tratar das instigantes questões que nos ocorrem quando pensamos no que se passa dentro de nossas cabeças. Será que temos mesmo livre-arbítrio? Um dia alguém vai conseguir “ver” o que se passa na mente de outra pessoa? Que mistério é esse que me faz sentir como uma pessoa especial, com identidade, num mundo cheio de pessoas? De que é feito o nosso pensamento? O que é a realidade que percebemos?

         Uma das coisas que fascina o ser humano é a sua relação com o tempo, assunto que já foi abordado em “Reflexões sobre o tempo”. Seria o tempo apenas uma ilusão, um artifício da nossa mente para dar sentido aos eventos que nos afetam? Passado, presente e futuro são coisas corriqueiras que até uma criança aprende a diferenciar. Mas ficamos estupefatos diante da nossa incapacidade de entender o tempo em sua essência e de deter a sua passagem. Assim, sonhamos sempre com a possibilidade de um dia viajar no tempo, seja voltando atrás ou indo adiante nesse cenário em que estamos aprisionados no presente. Diante da impossibilidade física de viajar no tempo (pelo menos até o que se sabe), a mente é o único veículo que nos permite fazer essa viagem. Por isso, inicio esta parte com um conto intitulado “Déjà vu” em que a mente é uma máquina do tempo muito peculiar. Os outros textos, mais sérios, tratarão das questões do livre-arbítrio, da estranheza dos nossos sonhos e sentimentos, da forma como percebemos a realidade. Eles levantarão mais dúvidas do que respostas. Mas, como frisei antes, o objetivo é instigar o leitor a pensar nessas questões e fazer seu próprio diagnóstico.

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Um comentário sobre “Eu sou aquele que ninguém mais é

  1. Olá Caco
    Estou meio ausente, pois estive viajando, fui para a Turquia e adorei conhecer o Oriente…outro mundo…muita historia do nosso passado..para entender o presente.
    Gostei desse artigo e vou acompanhar a sequencia deste texto. Abs Allice

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