Planeta dos homens

A natureza nos dotou da capacidade de pensar sobre o mundo e isto foi determinante para que conseguíssemos a hegemonia sobre as outras espécies. No entanto, essa capacidade não tem sido exercitada por nós, em todo o seu potencial, no tratamento dos animais. Ainda não aprendemos a conviver com eles sem lhes causar danos e sofrimento desnecessários. Parece que ainda somos dirigidos unicamente pelo instinto de sobrevivência com que conquistamos nossa supremacia ou, então, pela estratégia da terra arrasada que os antigos vencedores impunham aos seus derrotados.

É verdade que existem as sociedades protetoras dos animais que, de vez em quando, erguem a voz para nos lembrar que estamos maltratando os animais, porque de outro modo talvez nem percebêssemos isso. Acontece que os protetores dos animais às vezes exageram em suas demandas e transformam uma preocupação legítima em uma obcessão insensata ou, na melhor das hipóteses, numa batalha contra o inimigo errado. Neste assunto, como em muitos outros, a razão deve estar no meio.

Li recentemente que o governo americano fora pressionado para proibir a utilização de chimpanzés em experimentos de laboratório (leia aqui) e para respeitar direitos de golfinhos em parque aquático (leia aqui). Mas esse tipo de ação não é novo. As sociedades protetoras de animais existem há muito tempo e uma delas, chamada PETA (People for the ethical treatment of animals), foi fundada em 1980 (leia aqui) com o objetivo de estabelecer e defender os direitos de todos os animais. Ela atua sob o princípio de que os animais não são nossos para ser comidos, usados como vestimentas, como cobaias ou para o nosso entretenimento.

Parece que a regra de ouro nessa relação de humanos com animais é “não provocar sofrimento desnecessário nos animais”. A regra é simples mas de difícil aplicação, porque os termos “sofrimento” e “desnecessário” não são precisos neste contexto. Todos os animais são passíveis de sofrimento? Ou têm a percepção do sofrimento? Insetos e mamíferos sofrem igualmente? E o que dizer do termo “desnecessário”? Usar animais como alimento é desnecessário? Usá-los em testes de novos medicamentos ou procedimentos médicos é desnecessário? A resposta mais provável a estas perguntas é: não sei. Ou, na melhor das hipóteses, depende.

O homem interfere na vida dos animais de várias maneiras. As mais relevantes são:
1) Depredação e uso do meio ambiente, que causam a diminuição e até extinção de espécies.
2) Criação e abate de animais para servir de alimento.
3) Criação de animais de estimação para fins de companhia.
4) Confinamento de animais para uso em laboratórios como cobaias.
5) Caça predatória para exploração comercial.
6) Confinamento de animais para fins ornamentais ou de entretenimento.

Se pensarmos em necessidade, as quatro primeiras podem ter justificativas (não necessariamente legítimas); as duas últimas têm sido combatidas e já existem iniciativas que visam a eliminar essas práticas. Se pensarmos em causar sofrimento, talvez só a terceira esteja isenta (à primeira vista). Se pensarmos em escala, as três primeiras são, de longe, as que mais interferem nas populações de animais. São elas, portanto, que devem ser olhadas mais de perto.

Com o ritmo atual de crescimento da população não é difícil prever que, num futuro não muito distante, as espécies selvagens estarão confinadas em poucas e pequenas reservas florestais. Os esforços devem ser dirigidos para delimitar, o quanto antes, essas reservas e cuidar para que as populações de animais nelas existentes não sejam perigosamente diminuídas.

A criação e abate de animais para alimentação vai perdurar ainda por um longo tempo até que se encontrem substitutos economicamente viáveis para o alimento que retiramos dos animais. É um tanto óbvio que a substituição deve começar pelos mamíferos, os animais de grande porte, que mais parecem demonstrar que sentem o sofrimento do confinamento e da dor.

A prática de ter em casa um animal de estimação tem sofrido um aumento exponencial. É cada vez maior o número de famílias que adotam cachorros, gatos e outros animais para viver em suas casas. À primeira vista é uma atividade inofensiva e até generosa para com os animais, mas não é bem assim. Não conheço as estatísticas, mas é sabido que muitos donos de animais os abandonam sem qualquer remorso, em especial quando eles contraem alguma doença. Aqui, também, há espaço para a atuação das sociedades protetoras dos animais.

O uso de animais em laboratórios não deve afetar uma grande população deles (novamente, não conheço as estatísticas). Se os experimentos forem fundamentais para a descoberta e testes de medicamentos e procedimentos que são vitais para os humanos não há como evitá-los. É evidente que eles devem ser evitados sempre que haja outros meios para testar os medicamentos e procedimentos. Pesquisas devem ser feitas para encontrar tais meios e as sociedades protetoras dos animais podem contribuir com essas pesquisas se querem, de fato, defender os animais.

Estas foram algumas dicas para onde as sociedades protetoras dos animais deveriam focalizar a sua atuação. Enfim, todos gostariam de imaginar um mundo onde os humanos e os animais vivessem em harmonia, sem que uns molestassem os outros. Seria isso possível? Acho que não. A natureza não gostaria disso, pois as suas regras são de constante transformação e não de estagnação.

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