Tem alguém na minha cabeça mas não sou eu

 

Esta frase de Pink Floyd, da música Brain Damage, sumariza bem o livro Incógnito (David Eagleman, Ed. Rocco, 2011), indicado na seção Livros da edição 2256 da revista VEJA. Era mandatório que eu lesse o livro, pois ele trata de um dos assuntos mais abordados neste Blog, o livre-arbítrio. Li e gostei.

David Eagleman é um neurocientista que tem aquele dom de transformar os temas áridos da ciência em uma prosa agradável para o leigo, assim como outros que já mencionei aqui. Ele descreve em termos simples e com o auxílio de analogias e metáforas o papel das rotinas automáticas (programas zumbis, como ele as chama) que estão em nosso inconsciente e que são responsáveis pela grande maioria dos nossos atos na vida diária. Esses programas zumbis podem já vir instalados em nós pela genética, como os que nos permitem respirar, comer, ter medo, ou podem ter sido instalados pela prática repetitiva, como falar uma língua, jogar tênis, andar de bicicleta. Depois de bem estabelecidos, não temos mais acesso consciente à execução desses programas no desempenho das tarefas cotidianas. Mais interessante é que esses programas zumbis agem de forma concorrente entre si em busca do objetivo comum que é fazer o melhor para o indivíduo. Por exemplo, o ato de decidir comer um pedaço de bolo pode ser o resultado de uma negociação interna entre comandos que vêm o açúcar como uma rica fonte de energia e outros que procuram evitar o mal que a ingestão demasiada de açúcar pode causar ao organismo. Essa batalha não é acompanhada pelo nosso consciente, a não ser quando o estado de saúde do indivíduo requeira um cuidado especial e é, neste caso, que a sua mente consciente entra em cena para tomar a decisão final, atuando como juiz dos programas zumbis. Numa situação corriqueira, não temos qualquer ideia do que se passa em nossa cabeça ao decidirmos comer um pedaço de bolo (A fome? A simples visão do bolo? A menção de alguém à palavra bolo?). As rotinas automáticas trabalham à revelia da nossa vontade e são inacessíveis ao nosso estado consciente.

O papel da mente inconsciente é descrito no livro com base em uma rica experimentação com pessoas que sofreram danos cerebrais e com animais em laboratório e o autor é muito persuasivo nesse seu intento. Ele ainda especula sobre as razões porque a Inteligência Artificial (IA) empacou, depois de um início tão promissor. Segundo ele, a IA falha por não utilizar a abordagem da concorrência e negociação das rotinas internas, o que poderia tornar os computadores e robôs mais próximos do cérebro humano. Enquanto os programadores de robôs não divisarem uma maneira de emular essa democracia do cérebro humano, os robôs continuarão sem vida.

O objetivo do livro, porém, vai além de mostrar como funciona essa estrutura interna do cérebro. Ele consiste em mostrar como essas descobertas enfraquecem a hipótese da existência de livre-arbítrio no ser humano, com consequências diretas na imputabilidade de culpa pelos atos criminosos e nos procedimentos da justiça de um modo geral. Por fim, ele dá algumas alternativas para aperfeiçoar os mecanismos de punição e reabilitação de criminosos com a ajuda da neurociência.

Não é a toa que a questão do livre-arbítrio é muito antiga e persistente. Ele é o pilar maior da sociedade e no qual também se baseiam as religiões. As justiças terrena e divina ancoram-se no fato de que o homem é livre para tomar decisões e deve, portanto, ser responsabilizado pelas decisões que toma.

Essa questão esteve sempre restrita aos filósofos e só recentemente, com o desenvolvimento das técnicas de imageamento do cérebro, é que a neurociência começou a pesquisar as bases neurais para explicar a consciência e o livre-arbítrio. A despeito das implicações legais, morais e religiosas que essas pesquisas possam desencadear, a ciência desempenha o seu papel quando esmiúça o nosso cérebro para entender como ele funciona. Ninguém pode questionar os benefícios que essas pesquisas podem trazer para o tratamento de doenças mentais graves. Se o efeito colateral for descobrir que agimos como máquinas, paciência. Por outro lado, pode ser que a ciência chegue a um beco sem saída – uma singularidade no cérebro, como aquela do instante do Big-Bang, ou aquela quando se investiga o mundo subatômico. Essa singularidade seria um recanto minúsculo e inescrutável do cérebro que guardaria o mais incrível de todos os mistérios.

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