Pais não são deuses

Este site trata de criadores e criaturas. Não poderia, portanto, deixar de falar da relação entre pais e filhos que são legítimos criadores e criaturas. Há diferentes modos de entender a relação entre criadores e criaturas. O mais natural é aquele que relaciona o divino com o terreno. O criador está na figura de Deus, habitante de um mundo desconhecido para nós, mas onipresente no nosso dia-a-dia, perfeito e infalível. Nós, as suas criaturas, nos orientamos por seus ensinamentos e procuramos levar uma vida que nos torne merecedores do presente que recebemos de participar deste mundo.

Essa relação não poderia ser mais diferente do que a que existe entre pais e filhos de carne e osso. Mais por culpa dos pais do que dos filhos, porque os primeiros não são deuses. A começar porque vivem no mesmo mundo de suas criaturas, além do que não são perfeitos e nem infalíveis. Um dia, talvez, o filho pequeno tenha visto os seus pais como deuses, mas essa visão com certeza desaparece com o crescimento. Essa transformação não se dá repentinamente, mas aos poucos, à medida que os filhos tomam ciência de que seus pais são mortais, cometem erros e, muitas vezes, nem mesmo conseguem orientá-los bem ou sequer fazer parte do seu mundo.

Por que o papel dos pais é tão difícil, visto que eles já foram filhos e tiveram a oportunidade de olhar a relação de um outro ângulo? Por que na maioria das situações parece que isso não ajuda muito no exercício do papel de pai? Por que os pais não sabem se relacionar bem com os filhos mesmo sabendo – porque já foram filhos – o que um filho espera deles?

A resposta é simples: os filhos vivem em uma época diferente da que viviam os pais em sua idade. Não quero dizer com isto que a expectativa dos filhos em relação aos pais mude com o tempo. Não, os filhos esperam e sempre esperarão dos pais: proteção, orientação, apoio e companheirismo. O problema é que fica mais difícil aos pais atender a esses anseios quando eles próprios não estão ambientados num mundo em transformação, em que experiências passadas perdem muito do seu valor. Os novos estilos de vida trazidos por novos costumes e por avanços tecnológicos incessantes não são assimilados facilmente pelos pais e isso tende a afastar pais e filhos no convívio diário. Contribui, também, para isso a tendência atual de adiar ao máximo a paternidade, aumentando a diferença de idade entre pais e filhos. O resultado é que, a partir de um certo ponto, as partes não mais se entendem e a comunicação torna-se mais difícil, como se falassem línguas diferentes.

Então essa relação está destinada a fracassar porque a vida muda de estilo a cada geração? Obviamente que não. Ela está se modificando e tornando-se mais complexa, mas não necessariamente ficando pior. Cada vez mais ela se transforma numa via de mão dupla em que ambas as partes têm importante contribuição a dar e o grande desafio para cada uma delas é encontrar o seu novo papel. Apesar das dificuldades mencionadas, os pais continuarão a prover proteção, orientação, apoio e companheirismo, mas de uma forma mais sutil e limitada por sua própria dificuldade de acompanhar as transformações em andamento. Eles devem se convencer dessa limitação para não ficar com sentimento de culpa. Nem é preciso que sejam ídolos de seus filhos; mais importante para os pais é ser os primeiros na lista dos que eles gostariam de abraçar, seja ao receber um prêmio Nobel ou uma medalha de honra ao mérito, um diploma ou o primeiro emprego, no dia do aniversário ou, simplesmente, quando as coisas não estejam indo muito bem.

De qualquer modo, será sempre dever dos pais continuar servindo de modelo para a formação do caráter de seus filhos, pois eles estarão sempre se espelhando nos pais, ainda que apenas com o rabo dos olhos. Os pais podem não ser deuses, mas serão sempre um tipo de anjo da guarda.

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7 comentários sobre “Pais não são deuses

  1. Olá Dias/Caco

    O artigo é bem interessante e mostra as dificuldades e facilidades de ser pai e ser filho. O grande Kalil Gibran Kalil comparava pai e filho com arco e flecha, ou seja, a alegria do pai é ver o filho a sua frente.

  2. Caro Caco,

    Você tem o dom de vislumbrar as questões mais fundamentais nas relações humanas. Nas relações entre pais e filhos, um ruído tem sido perturbador: a família não é uma democracia. Meu pai biológico me deixou exemplos importantes, mas abomino a ideia de um pai político. Seria muito interessante comparar as autoridades do pai, do mestre, do juiz, do chefe, como fez Kojève em La notion de l`autorité.

    Parabéns pelo texto.

    Nílson

  3. Ola Caco.
    Parabens por esse texto .Esolheu bem!
    Todos que sao pais, passam por essa etapa na vida.
    O importante, é que eles sintam nosso amor e preocupaçao por eles.
    Abraços Celia.

  4. Bela reflexão!
    Acho que os nosso pais são vistos deuses e heróis em três momentos: 1- quando somos crianças; 2- quando nos tormanos mães ou pais e 3- quando os perdemos.
    Abraços para o vovô herói!!!!!

  5. Como um dia escreveu o poeta Belchior:

    Minha dor é perceber
    Que apesar de termos
    Feito tudo, tudo,
    Tudo o que fizemos
    Nós ainda somos
    Os mesmos e vivemos

    Hoje você escreve de forma magistral a relação tão conturbada, e saudável ao mesmo tempo, de pais e filhos.

    Abraços Padrinho.

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