Viver em sociedade

Uma notícia sobre engenharia de sistemas complexos (leia aqui), aliada ao espírito de final de ano, motivou-me a escrever este texto que fala de família, amigos e … do que anda errado com a nossa sociedade. A sociedade é um sistema complexo; ela não é uma simples coleção de indivíduos, ou, pelo menos, não deveria ser. Entretanto, quando observamos o que acontece por aí, parece que ela não passa disto, uma coleção de indivíduos, sem qualquer vínculo mais profundo entre eles. Para funcionar bem a sociedade não pode prescindir da empatia entre as pessoas, que é uma das mais preciosas qualidades que a espécie humana adquiriu – também compartilhada por poucas outras espécies afortunadas – que faz com que o indivíduo se preocupe com o sofrimento alheio como se fosse o seu próprio. É por meio dela que uma sociedade pode se manter coesa e viável. Quanto maior for o grau de empatia existente num grupo de pessoas, menor será a possibilidade de uma pessoa causar algum mal a outra pessoa do grupo. A família é um exemplo de grupo onde a empatia entre seus membros é muito grande e, por isso, os laços familiares são tão fortes.

A sociedade pode estar sofrendo de um enfraquecimento da empatia causado, talvez, pelos novos costumes trazidos pela vida moderna, que têm dado ao indivíduo a capacidade de viver uma vida plena sem depender tanto dos vínculos familiares e comunitários que lhe eram tão preciosos no passado. Em outras palavras, a vida em pequenas comunidades está ficando em segundo plano e a sociedade está cada vez mais se tornando uma grande coleção de indivíduos, sem aqueles grupos intermediários onde a empatia podia ser exercitada no limite e o caráter das pessoas aperfeiçoado. Família, bairro, igreja, clube (academia), escola, entre outros, têm hoje um significado muito diferente, para o indivíduo, daquele que tinham no passado e estão menos presentes na sua vida social. Várias causas podem estar contribuindo, de forma simultânea, para que isto aconteça: 1) a família está sofrendo uma grande transformação que provoca o distanciamento entre pais e filhos; 2) as comunidades locais, como clubes, grupos culturais e grupos simples de amigos e vizinhos perdem apelo em relação ao contato virtual proporcionado pelas redes sociais e pela comunicação à distância facilitada pelas tecnologias modernas; 3) os excessos cometidos por líderes religiosos e o fanatismo de grupos religiosos afastam os indivíduos das igrejas; e, o que é pior: 4) a criminalidade – que é um possível resultado desse isolamento do indivíduo – retroalimenta o sistema provocando mais isolamento.

Acabar com esse isolamento é uma tarefa complexa. As causas apontadas, e outras não apontadas, devem ser investigadas para se determinar a sua influência no comportamento errático das pessoas e procurar meios de atenuá-la. Em especial, não se pode descartar a tecnologia moderna e regredir no tempo. Seria um despropósito não reconhecer o mérito da comunicação instantânea que facilita a vida dos cidadãos e um despropósito ainda maior incluí-la como vilã nesta história. Mas há que se encontrar meios de aproveitá-la em sua plenitude, assim como de aperfeiçoar as outras instituições para que voltem a aproximar os indivíduos.

Talvez seja este o maior desafio para o emprego das técnicas de engenharia de sistemas complexos, assunto com que iniciei este texto. Os estudos e modelos para realizar este fim devem ser complexos e custosos, mas os seus resultados poderiam compensar amplamente os esforços e recursos gastos nessa tarefa. Eles poderiam dar subsídios valiosos para as políticas públicas e para aperfeiçoar a legislação que orienta a atuação dos indivíduos. Uma parte dos recursos, públicos e privados, que hoje financiam fundações voltadas para objetivos sociais, poderia ser direcionada para esses estudos sociológicos e, se houver necessidade de realizar experimentos pilotos, os voluntários poderiam ser encontrados em toda parte. Afinal não deve faltar gente descontente com a vida que leva.

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4 comentários sobre “Viver em sociedade

  1. Caco

    Concordo com você. Muita gente valoriza mais uma semana num resort com gente desconhecida do que o resto do ano com as pessoas e grupos de sua comunidade.O resultado é a agenda cheia dos psiquiatras e terapeutas.
    Grande abraço

    Ricci

  2. Caco, mais uma excelente reflexão!!! J. Naisbitt já previra em seu livro “Megatrends” que por volta dos anos 2000 viveríamos a era do “Triunfo do Indivíduo”. Tudo me leva a crer que a previsão já se consolidou e vivemos num cenário em que a sociedade vive, sim, um certo caos. O individualismo, somado aos efeitos da mídia invertem os valores em prol da prospecção e expansão de novos mercados consumidores, dentre outras coisas. Como já discutimos em outros textos, não sei até quando o planeta irá aguentar. Acredito que estamos bem próximos de uma grande ruptura do modus vivendi. A história nos mostra, com fatos e dados, repetições de modelos que me ajudam a acreditar na minha tese. Parece estarmos consolidando, na artificialidade característica das ações humanas, nosso inverso: o desnatural. Nossa energia social tem gerado, infelizmente, muito calor, mas pouca luz.

  3. Caco
    É final de ano e neste ultimo dia leio um texto seu , bem pensado, bem escrito e que de alguma maneira, nos faz bem, nos preocuparmos com o outro, a relação com os outros, justamente na época das Festas…
    Porque hoje o individualismo , está tão forte? ou foi sempre assim ? Hoje a gente tem mais noção dos fatos, dados e mais informação?
    Um fato é certo , a tecnologia nos isola e me parece irreversível…..Outro fator importante é preservar a noção de valores, o que me parece que há uma inversão muito grande…sempre o esperto, o corrupto é o modelo…..ás vezes, o mal é tão difundido, que se torna modelo….para toda uma sociedade…
    Feliz 2012.e..continue escrevendo e me mandado seus textos maravilhosos….Abrs Alice

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