Deus é brasileiro

A expressão “Deus é brasileiro”, todos sabem, procura atribuir a Deus a nossa nacionalidade para explicar a sua predileção pelo nosso país e seu povo. É uma explicação jocosa para as belezas e riquezas naturais que temos aqui e para o estado de felicidade da maioria dos brasileiros. Denota, à primeira vista, a confiança do povo brasileiro no seu futuro, convicto de que Deus, na hora certa, vai fazer tudo o que for necessário para garantir a sua prosperidade e felicidade. E por que? Porque somos um povo religioso, solidário, pacífico, trabalhador e alegre. Com tantas virtudes, Deus não poderia virar as costas para nós.

Engana-se, entretanto, quem acha que essa é a interpretação de todos para a expressão “Deus é brasileiro”. Talvez nem a maioria acredite nisso. A nossa índole de povo brincalhão, que não leva nada a sério, não condiz com a interpretação acima. A explicação para a expressão tem que ser outra. “Deus é brasileiro” poderia significar, por exemplo, que o brasileiro tudo pode, tendo Deus como seu compatriota e protetor. Não é necessário se preocupar com o futuro porque a felicidade estará garantida pelo Deus complacente que fará vistas grossas aos nossos erros. Sei que estaria fazendo injustiça se atribuísse essa versão a todos os brasileiros, mas um bom naco do povo brasileiro não se incomodaria com isso.

Há aqueles que são pretensiosos e acham que os brasileiros têm tantas virtudes quando comparados com outros povos que Deus, um ser perfeito, só poderia ser brasileiro. Não poderia ser americano ou sueco, que não têm as virtudes que temos. É uma interpretação também possível, mas que não faz muito o gênero do brasileiro.

É mais plausível achar que “Deus é brasileiro” significa rebaixar Deus ao nosso nível, ou seja, assim como os brasileiros, Deus não faz nada certo. Isto explicaria as dificuldades por que passamos. Blasfêmia? Não, quando vem da parte de um povo que não quer dizer o que diz, ou que diz o que não pensa. Na mitologia antiga não são raras as histórias em que os deuses se divertem com os infortúnios que impõem às suas criaturas, como se elas fossem meramente objetos de diversão para os poderosos do Olimpo. Com os brasileiros eles teriam um jogo duro. Se, como diz a literatura, os deuses do Olimpo tinham inveja dos seres humanos por serem eles mortais e terem inventado o amor, teriam ainda mais inveja da capacidade dos brasileiros de achar graça da própria desgraça. Se os deuses podem estar brincando conosco, por que não brincar com eles também?

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