O clone e o efeito borboleta

A clonagem de humanos é um assunto que intriga a todos. Experiências com animais mostraram que a clonagem é perfeitamente possível também em humanos. Mas ela será feita algum dia? Os problemas éticos e religiosos associados a ela são enormes, assim como o são os benefícios medicinais da clonagem de órgãos. Todavia, não quero falar da clonagem sob este ângulo, mas sob outro mais ameno e ficcional. A clonagem que instiga a todos é aquela tratada no filme “O sexto dia”, em que um sujeito tem não só o seu corpo clonado, mas também todo o conteúdo do seu cérebro: memórias, experiências e todo o resto. E mais, a clonagem é feita em pouco tempo, como numa linha de produção. Neste caso, como seria bizarra a experiência de ficar diante de um outro eu!

Uma prova de como somos atraídos pela clonagem é o nosso interesse por histórias de gêmeos univitelinos, quer sejam elas sobre gêmeos criados no mesmo ambiente ou em ambientes diferentes. Temos curiosidade em saber que semelhanças e diferenças eles carregam entre si e quais as influências genéticas e ambientais que predominam no seu desenvolvimento.

Para instigar um pouco mais essa curiosidade sobre clonagem, vou descrever uma situação absolutamente hipotética. Um indivíduo é clonado – segundo o mesmo processo do filme mencionado – e ele e seu clone acordam em uma sala onde se veem um diante do outro. O ambiente foi preparado de tal forma que os estímulos externos (cores, sons, cheiros e outros), que afetam a ambos, fossem os mesmos. Ambos têm a mesma visão do parceiro à sua frente e da sala perfeitamente simétrica em que se encontram. Exatamente no meio de ambos está um leitor de impressões digitais e uma instrução que pode ser lida por ambos: “Se precisar de ajuda coloque o polegar no leitor”. Em poucos segundos eles notam que estão executando as mesmas ações, como: levantar-se da cadeira, dar um passo à frente, erguer a mão direita etc. Quando um tenta falar o outro faz a mesma coisa e ambos silenciam, surpresos. Eles não podem saber, mas os seus pensamentos são, também, os mesmos. Depois de alguns segundos, ambos tentam colocar o polegar sobre o leitor de impressões digitais e imediatamente notam que não conseguem, pois os seus dedos se interferem. Não conseguem se comunicar e estabelecer uma estratégia de ação. Como definir quem vai colocar o polegar no leitor? E assim, ficam diante desse impasse até morrer. (Alguém consegue ver uma saída para esta situação?)

Qual é a moral desta história? Nenhuma! As hipóteses são tantas que tornam a história risível. Ainda que a clonagem atingisse um estágio de perfeição, as variáveis e suas inter-relações são tantas que seria impossível evitar o efeito borboleta. (À guisa de esclarecimento, o efeito borboleta, tão explorado em filmes de ficção científica, refere-se às mudanças amplificadas no estado final de um sistema quando se alteram ligeiramente as suas condições iniciais, num experimento de simulação.) O indivíduo e seu clone nunca serão exatamente iguais e, ainda que fossem, seria difícil imaginar que agissem de maneira absolutamente sincronizada (E o livre-arbítrio como fica?). A história nem mesmo serve para um filme de ficção científica, pois quem teria paciência de aturar por duas horas seguidas duas pessoas executando pateticamente os mesmos gestos?

Pensando bem, a história tem sim uma moral: Viva a diversidade! Viva a imprevisibilidade! Sem elas não existiria uma vida que valeria a pena ser vivida.

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