Retrato de família

“Malditos parasitas!” É o que teria dito a mamãe Sol – se pudesse falar – ao ver o sistema solar de seu ponto privilegiado, como se olhasse para o retrato de família. “Agora, contaminaram a pobrezinha Terra! Essas cores, azul, verde e marrom, não me enganam, são os sintomas da contaminação!”

Ela lembra que há pouco tempo havia acontecido a mesma coisa com o pequeno Marte. Felizmente ele está curado agora. Voltou a ter a sua antiga cor avermelhada, saudável. Ela sabe muito bem que cores e aspectos os seus filhos devem ter quando estão saudáveis. Os pequenos e mais próximos, acinzentados ou avermelhados, têm aspecto rochoso, com as suas crateras à mostra para lembrar as batalhas, pela sobrevivência, que tiveram contra os temíveis e descontrolados bólidos do espaço. Os irmãos maiores – Júpiter, Saturno, Urano e Netuno –, avermelhados, amarelados ou azulados, têm aspecto gasoso e estão a uma distância estratégica para aprisionar em suas atmosferas traiçoeiras aqueles viajantes do espaço, protegendo, assim, os seus irmãos indefesos. Quanto ao desgarrado Plutão, ela quase não se lembra de sua cor e mal consegue vê-lo ao longe. “Tomara que esteja bem!”

Azul, verde e marrom, nunca. São as cores combinadas da contaminação. A história é sempre a mesma: primeiro, os bólidos espaciais – que escapam da vigilância dos irmãos maiores – chocam-se com seus filhos menores, liberando a água para a superfície e criando uma camada de vapor ao redor do planeta; depois, outros pedregulhos viajantes trazem o parasita, que se instala e toma conta do planeta já adaptado. Em pouco tempo tudo se transforma. O que era árido e monocromático ganha cores verdes e, de longe, o pobre planeta se mostra nas cores azul, verde e marrom.

Aí, então, começa a luta da mamãe Sol para livrar o filho da moléstia. Mas as suas armas são poucas: um vento solar, soprado com um pouco mais de força; uma tempestade magnética esporádica, sempre que ela consegue reunir forças extras; e uma persistente radiação ultravioleta para incomodar os intrusos que, nessa hora, já estarão protegidos por uma sólida camada de ozônio.

Mas ela não desanima. Já ganhou a batalha outras vezes e vai ganhar mais essa. Ninguém pode arruinar essa obra magnífica de Deus, que são os seus planetas. Tão majestosos em sua esterilidade e padrão simples de cores e tão estáveis em suas órbitas perenes que fazem o tempo parar. O universo seguiria assim indefinidamente imutável em sua bela monotonia, não fossem esses malditos parasitas que a tudo querem transformar. Deus criou essa paisagem fixa, permanente, atemporal. Alguém, insatisfeito, criou esse agente de mudanças que quer dar um significado ao tempo.

“É preciso agir mais rápido, senão eles podem infectar novamente o pobre Marte.”, pensou a mamãe Sol.

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Um comentário sobre “Retrato de família

  1. Um final sugerido para esta história:
    Inconformada, pois os parasitas agora são muito mais resistentes, mamãe Sol recorre a um último ato de desespero: começa a inchar e acaba por engolir seu filhos menores, para que voltem a fazer parte do seu corpo para sempre…

    Abraços,

    Jose

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