Energia escura e progresso

Notícias recentes ajudam a entender como estão evoluindo o universo e a sociedade. Por mais estranho que pareça, há um paralelo entre essas histórias.

O prêmio Nobel de Física, de 2011, foi entregue a pesquisadores que constataram que o universo está se expandindo a uma velocidade crescente (leia aqui). Esperava-se que a expansão do universo estivesse se desacelerando pela ação da gravidade, que tende a aproximar os corpos celestes, mas, ao invés disso, algo parece fazer com que os corpos celestes se afastem entre si. Os cientistas atribuem isso ao que chamam de energia escura, que se sobrepõe à ação da gravidade.

Aqui, em terra firme, as notícias dão conta de como o desenvolvimento científico e tecnológico está se acelerando. A morte do brilhante Steve Jobs traz à lembrança o imenso progresso recente na área de comunicação e informação, que sugere que não há limites para as realizações nessa área. Depois dos computadores vieram os laptops, ipods, iphones, ipads, computação em nuvem e sabe-se lá o que mais virá em seguida.

Na área de neurociência, a equipe do cientista brasileiro Miguel Nicolelis acaba de divulgar um experimento em que um macaco consegue, apenas com a mente, mover um braço virtual para apanhar um objeto, também virtual, e sentir o tato ao tocá-lo (leia aqui). É um avanço tremendo na direção de devolver às pessoas paraplégicas a capacidade de mover-se e manipular objetos.

Na área da genômica, os desenvolvimentos recentes possibilitam prever que o sequenciamento do genoma humano vai se tornar em breve uma tarefa rotineira e, logo em seguida, as pesquisas se voltarão para a tarefa de modificá-lo com o intuito de evitar doenças e aumentar o tempo de vida do ser humano (leia aqui).

Fazendo analogia com a expansão acelerada do universo, parece que o efeito “energia escura” é também a regra que norteia o progresso: novos avanços impulsionam outros avanços e a sociedade, assim como o universo, progride a uma taxa crescente. Exceto, parece, na área social.

Nessa área, as notícias não são animadoras. A recente visita do papa Bento XVI à Alemanha foi caracterizada por fortes protestos contra a posição da igreja católica em diversos assuntos como pedofilia no clero, aborto, métodos contraceptivos. O líder budista Dalai Lama foi impedido de entrar na África do Sul por motivos políticos. A Assembléia Geral das Nações Unidas terminou sem nenhum progresso na solução dos problemas do Oriente Médio. A crise financeira na Europa ameaça o mundo com uma nova recessão. Fome, violência, injustiças, desrespeito aos padrões morais mais consagrados ainda grassam nessa sociedade altamente tecnológica.

Por que isso acontece, se tudo é fruto da mesma inteligência humana? Por que não somos tão criativos na área social como o somos na área científica e tecnológica? Parece que somos bons em desenvolver produtos, mas péssimos em aperfeiçoar as instituições. Instituições tradicionais como religião, forma de governo, justiça e economia mantêm-se atreladas a conceitos antigos e resistem a mudanças como se estivessem sujeitas a uma força gravitacional descomunal que as fazem fechar-se em si mesmas, como buracos negros. É necessário procurar a razão que faz com que essas instituições sejam tão refratárias a novas ideias e encontrar uma forma de fazer com que pequenos aperfeiçoamentos estimulem, em cascata, novos avanços, como no efeito “energia escura”. Se um dia isso for alcançado, ou seja, se a energia escura – que rege o nosso desempenho em relação à ciência e tecnologia – vier a prevalecer sobre o campo gravitacional que domina a área social, aí, então, não haverá limites para o nosso progresso. É uma tarefa para mentes brilhantes.

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2 comentários sobre “Energia escura e progresso

  1. Prezado Oscar: Quer me parecer que a questão social é um problema análogo ao da formação das galáxias no Universo, pela diferença de densidade em sua formação e posterior concentração de matéria por meio da atração gravitacional. Faz parte da natureza do Universo, assim como da natureza humana. Não há muito o que fazer na tentativa de estabelecer um ponto de equilíbrio natural, a não ser pela introdução de forças externas no sistema, mas não devemos nos portar como Deus, pois nem Ele interfere no Universo, simplesmente deixa que ele se regule pelas leis da Natureza.

    Abraços,
    José

    • Caro José,
      Você tocou num ponto interessante. Em algum texto anterior (não me lembro em qual, mas sei que ele tratava da questão do livre arbítrio) eu falei sobre a necessidade de forças externas para colocar as coisas (feitas pelo homem) nos eixos. Deus poderia intervir de tempos em tempos para arrumar a nossa bagunça (como já foi feito uma vez). Entretanto, ainda que isso seja necessário, acho que podemos fazer muito na área social antes que a ajuda externa seja necessária. Ainda acho que nessa área não estamos usando todo o nosso potencial como o fazemos em outras.
      Um grande abraço.
      Oscar

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