O que o mar tem a ver com pesadelos?

Se a Terra fosse um organismo vivo, como na hipótese Gaia, de James Lovelock, o que representariam os seus rios e oceanos? Muitos responderiam que eles seriam o sistema circulatório que permite à água, esse líquido vital, chegar a todas as partes do planeta. Proponho aqui outra interpretação, menos óbvia, mas que, suponho, possa ter passado pela cabeça de mais alguém. Segundo ela, os rios podem representar a nossa mente consciente e o mar a inconsciente. É claro que isto exige mais explicações.

Os rios, com os seus trajetos bem definidos, conduzem a água celeremente por vias bem delimitadas e pouco profundas a um destino estabelecido (razão, propósito). O oceano contém uma massa disforme de água que se move sem uma direção definida e que, em sua quase totalidade, está oculta nas profundezas abissais do leito do oceano (obscuridade, inacessibilidade).

Os rios, com as suas águas cristalinas e acessíveis, evocam os sentimentos de poder e controle. O oceano, em sua imensidão inescrutável, evoca os sentimentos de medo e insegurança.

Em sua direção ao oceano, os rios carregam todas as impurezas (experiências ruins, traumas) que acumulam em sua trajetória para despejá-las no oceano, livrando-se do que lhes incomoda. O oceano, por sua vez, recebe a carga indesejada e, quando não a elimina, esconde-a em suas entranhas inacessíveis.

Porém, nem sempre inacessíveis. De tempos em tempos, nas marés altas – durante o nosso sono -, o fluxo se inverte e o oceano invade os rios saturando de sal as suas águas doces e cristalinas. Uma região conturbada e confusa se forma, onde água doce e salgada se misturam, como num sonho se juntam realidade e fantasia. Se impurezas antigas forem trazidas pelo mar, estará criada a receita para o pesadelo. Ao baixar a maré (quando acordamos), tudo volta ao normal. Algum gosto de água salgada (sonho) ainda pode ser lembrado, mas as trocas químicas mais profundas (pesadelos) desaparecerão e os rios voltam a ser rios.

Vez ou outra, na maré baixa, podem ficar vestígios da maré alta. Às vezes, apenas algumas pequenas poças de água salgada, que logo se evaporam com o sol. Outras vezes, poças maiores que demoram mais a evaporar. Um dia, entretanto, a maré alta pode formar lagos perenes de água salgada que não mais se evaporam. Até que, finalmente, o mar pode engolir completamente os rios. O indivíduo, então, não se livra mais do pesadelo e perde completamente a sua atividade consciente entrando em um estado de demência.

É curioso como essa analogia, que se baseou na ideia de que a Terra pode ser um organismo vivo – o conceito de Gaia –, pode sugerir um diagnóstico para o planeta. Afinal, o tão discutido aquecimento global poderá fazer com que os oceanos tenham os seus níveis elevados a ponto de invadir e devastar grandes regiões do planeta. Poderíamos, então, dizer que a Terra estaria entrando em um processo de perda da sanidade mental?

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