Livre arbítrio sob ataque

Imagine a seguinte situação: você está sob hipnose e o hipnotizador diz: “Quando eu estalar os dedos você sentirá sede e tomará a água do copo ao seu lado. Quando eu estalar os dedos novamente você acordará e a única coisa de que se lembrará é que teve sede e tomou a água”. Quando você acordar terá a ilusão de que decidiu tomar a água por livre e espontânea vontade, mas, de fato, a decisão lhe foi imposta pelo hipnotizador.

Pois bem, neurocientistas estão querendo provar que alguma coisa semelhante ocorre em nossas mentes quando tomamos as decisões e executamos as ações corriqueiras (leia artigo aqui). Voltando à situação hipotética, no seu lugar está a sua mente consciente e no lugar do hipnotizador está o seu cérebro. O nosso cérebro determina que decisões vamos tomar antes que a nossa mente consciente o faça. A sensação de que estamos tomando uma decisão consciente e soberana é, portanto, apenas uma ilusão. O cérebro manda, a mente obedece; o livre arbítrio não existe; estamos apenas iludidos quanto a ele.

Os experimentos descritos no link indicado mostram que há um intervalo significativo de tempo (da ordem de segundos) entre o momento em que o cérebro estabelece as conexões neurais que levarão a uma decisão e o momento em que pensamos estar tomando aquela decisão. Alguns filósofos contestam esses experimentos e se recusam a aceitar a conclusão de que o livre arbítrio não existe. Alegam que os experimentos não são suficientemente convincentes e mais pesquisas devem ser feitas para que se possa chegar a uma conclusão a esse respeito.

As implicações de se constatar que não temos livre arbítrio são muito sérias, seja do ponto de vista religioso – pelo qual o livre arbítrio está ligado ao lado espiritual, ou a alma, das pessoas – seja do ponto de vista moral e criminal – uma vez que sem o livre arbítrio as pessoas não têm responsabilidade por seus atos. Outro fato torna ainda mais séria esta questão: o mesmo grupo de neurocientistas, responsável pela pesquisa citada, realizou outro teste com dois grupos de indivíduos; apenas ao primeiro grupo foi comunicado o resultado da pesquisa que concluiu sobre a inexistência do livre arbítrio. O teste apresentava situações que estimulavam a trapaça nas respostas e, após a sua aplicação, os indivíduos do primeiro grupo mostraram maior tendência a trapacear do que os do segundo, como se sentissem justificados por não ter controle sobre as suas decisões.

Os resultados dessas pesquisas ainda vão ser muito debatidos e muitas outras mais ainda serão feitas para explicar como funciona a mente humana. Quer estejamos iludidos pelo cérebro, quer o livre arbítrio seja explicado por fenômenos quânticos, quer seja ele a manifestação de um ente espiritual ou alma que se sobrepõe às leis naturais, em suma, quer o indivíduo seja ou não responsável pelos seus atos, caberá sempre à sociedade aperfeiçoar os mecanismos de julgamento das ações do indivíduo e – quando considerado culpado – cuidar das formas adequadas para a sua reabilitação. Na pior das hipóteses, ainda que o indivíduo não tenha livre arbítrio, os estímulos externos continuarão a influir na química do seu cérebro induzindo-o a executar certas ações. Parece sensato dizer que, se a sociedade produzir estímulos positivos, não há porque esperar que a reação do indivíduo também não seja positiva. (Sei que posso estar usando um raciocínio cíclico, pois a sociedade é formada de indivíduos, mas não me importo.)

Outra maneira de ver a questão é pensar que não faz diferença se temos livre arbítrio ou se apenas estamos iludidos de tê-lo. Em qualquer dos casos sentimos que somos senhores de nossas ações. Devemos, então, esquecer essa questão e agir de acordo com a nossa consciência – ou o nosso cérebro – sem deixar que a dúvida interfira em nosso comportamento. Desnecessário dizer que não há mesmo outra saída.

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