O valor da vida

Já falei bastante sobre o mistério da criação da vida, sua evolução e sua relação com a natureza. Não falei, ainda, sobre o valor da vida, aquilo que permite à sociedade atribuir prioridades quando diferentes vidas estão em situação de risco. Se tivermos que fazer uma escolha entre poupar esta ou aquela vida, que decisão devemos tomar? Que vida vale mais: a do jovem ou a do idoso? A do filho ou a da mãe? A do amigo ou a do desconhecido? A do indivíduo doente ou a do são? Duas vidas valem mais do que uma? Este é um terreno pantanoso onde mal conseguem se equilibrar os psicólogos, os juristas, os líderes religiosos, os pensadores. Que dizer, então, dos pobres mortais.

Ainda assim, frequentemente pessoas se vêm diante de situações em que têm que fazer uma escolha penosa entre uma vida e outra. Elas estão entre aqueles que exercem profissões humanitárias como médicos, enfermeiros, bombeiros, salva-vidas mas, também, podem ser policiais, militares, governantes. Até criminosos podem se ver diante desse dilema, sem falar dos cidadãos comuns que, por infelicidade, venham a confrontar uma dessas situações.

De onde essas pessoas podem tirar os fundamentos para agir corretamente? É claro que os profissionais passam por extensos treinamentos antes de iniciar a sua profissão e estão sujeitos a um código de ética que os orienta em suas decisões. Mas isso é suficiente? Certamente não. Os treinamentos nunca simularão todas as possíveis crises a que os profissionais estarão sujeitos e, mais ainda, nem todas as crises têm um procedimento correto a ser seguido. Em última instância, o sujeito tem que se valer do que dita a sua consciência.

Defender a própria vida é um preceito aceito por todos e ninguém é condenado por matar em legítima defesa. É o caso mais simples, especialmente quando a vítima for um ilustre desconhecido, e bandido. Salvar a mãe em detrimento do feto também não é um caso polêmico. Poupar a vida de um jovem favorecendo-o com um transplante de órgão, no lugar de um idoso moribundo que faria pouco uso daquele órgão, parece ser uma decisão sensata. Alvejar em pleno ar um bimotor que, com o motor falhando, pode cair sobre um bairro populoso … Epa! A decisão está começando a ficar difícil.

Se continuarmos a enumerar os casos veremos que os mais simples perdem de lavada, em número, para os mais complicados, aqueles em que não temos clareza sobre quem socorrer primeiro. A decisão que está prestes a acontecer na cabeça do herói vai ser determinada por um fortuito contato visual com uma das vítimas, ou por uma voz de criança chamando pela mãe ou por um pensamento súbito que o leve a uma ação imediata qualquer. Enfim, é a sua consciência trabalhando para que ele tome uma decisão. Boa ou ruim. Quem sabe?

Lidar com vidas humanas pode levar a nossa consciência aos mais complexos dilemas. Em seu livro “Moral minds: How nature designed our universal sense of right and wrong” – Mentes morais: Como a natureza projetou nosso senso universal do que é certo e errado -, Marc Hauser idealiza uma série de situações fictícias – que envolvem tomar uma decisão de salvar pessoas em detrimento de outras – para avaliar o nosso senso de moralidade. As situações envolvem, por exemplo, um trem em rota de colisão com um grupo de pessoas e um operador que pode desviá-lo para outro trilho em que atropelaria apenas um indivíduo, e outras curiosas variações dessa situação. Cada situação é apresentada para várias pessoas para que julguem a moralidade de o operador tomar uma ou outra decisão. Ainda que certas decisões tenham recebido o apoio da maioria, os resultados mostram que há diversidade nas respostas e que é muito difícil estabelecer padrões morais absolutos quando o objeto é a vida. Definitivamente, ela não é um bem que possa ser contabilizado por quantidade e preço. A vida é algo peculiar, um bem precioso e único, cujo valor, na maioria das situações, não permite comparações e sequer pode ser considerado cumulativo, ou seja, duas vidas não necessariamente valem mais do que uma. É mais fácil dizer que o valor da vida não é mensurável.

De repente dou-me conta de que esta conversa é uma inteira tolice. Falar sobre o valor da vida? Não sei a quem quero enganar. Sinto que estou apenas tomando o tempo de leitores pacientes. Qualquer um que assista à TV ou leia os jornais sabe que a vida de fato não vale nada.

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