Rito de passagem

…agora, ele sentia-se muito estranho. Não conseguia respirar bem, ou nem mesmo respirava mais. Sentia-se sufocado naquele ambiente úmido e fechado. Em contrapartida, curtia uma sensação de leveza, de corpo e de espírito. Gostava, também, de não sentir qualquer dor. Era só o desconforto da respiração. A visão turva e a memória confusa não o incomodavam.

Ele estava velho, embora não soubesse mais quantos anos tinha. Sentia-se como alguém que tivera uma vida feliz. Não conseguia lembrar-se de quase nada, mas o seu espírito leve era prova suficiente de que ele cumprira com sucesso a sua missão. Prova de que fora um homem honrado, solidário e que amara imensamente as pessoas que o cercaram.

…agora, ele sabia que tudo estava terminando. Senão, por que teria tanta dificuldade de respirar, de mover-se ou mesmo de ter consciência do que se passava à sua volta? Sentia tudo tão estranho a ponto de pensar que já tivesse morrido e estava em algum estágio intermediário, em direção a um local definitivo. Estaria no purgatório? Seus sentidos não ajudavam em nada. Visão, audição, nada lhe fornecia qualquer pista de onde estava.

Ele nunca foi um homem ambicioso, no sentido comum da palavra. Mas ambicionava viver mais tempo. Gostava da vida. Era uma pena que ela estava terminando. Se lhe fosse dada a chance, viveria mais uma, duas ou quantas vidas fossem possíveis. Não que tudo tenha sido maravilhoso. Teve muitos dissabores, mas eles foram amplamente compensados pelos momentos em que sentiu seu coração bater forte e sua respiração se acelerar diante do surpreendente e arrebatador, sua boca se abrir em sorrisos diante do alegre e inocente e sua cabeça sonhar diante do belo e imaginário.

…agora, ele só pensava: “isto vai passar logo, é só uma curta e derradeira batalha neste final de vida”. Procurava animar-se, mas sentia uma pressão forte em todo o seu corpo, como a empurrá-lo para algum lugar. Algo pressionava a sua cabeça. Ele resistia inconscientemente porque não queria mover-se dali.

Como era difícil não poder se comunicar com as pessoas nos momentos derradeiros. Falar com elas sobre como fora divertida a grande aventura que tiveram juntos. Despedir-se com uma grande festa e marcar um novo encontro. A verdade, no entanto, era que ele não se lembrava mais que pessoas eram essas. Ele não se lembrava, também, de como tinha chegado a essa situação. Ficara doente? Estava em casa ou num hospital? Os momentos mais recentes da sua vida pareciam-lhe completamente esquecidos. A memória escapava-lhe rapidamente.

…agora, ele já não tinha noção nem mesmo de quem era e do que sentia. Não tinha mais lembranças. Não pensava em mais nada. Tudo se resumia ao pequeno espaço escuro onde se encontrava, à urgência de respirar. A pressão sobre o seu corpo aumentava e o empurrava em alguma direção. Instintivamente ele esticou a cabeça como alguém que procura sair à superfície da água para respirar. Então, seus ouvidos foram surpreendidos com novos sons, enquanto o seu pequeno corpo era puxado para fora e o ar, finalmente, entrava em seus pulmões. O seu choro era o de uma criança, de uma nova vida que se iniciava. Enquanto o seu corpo era limpo e o cordão umbilical cortado, ele não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Se tivesse, constataria que o seu maior desejo tinha sido atendido.

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2 comentários sobre “Rito de passagem

  1. Lindo texto.Maravilhoso. Muitas, mas muitas pessoas deveriam ler essa preciosidade.
    Parabéns meu amigo Caco.
    Carlos Alberto Cunha

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