Quem quer ser imortal?

Duas notícias nesta semana chamaram a atenção para o tema da imortalidade. A primeira foi divulgada na Folha de S. Paulo (leia aqui) que reproduz declarações do cientista Aubrey de Grey, co-fundador da Fundação Sens, com sede na Califórnia. Segundo ele, há 50% de probabilidade  de que, num horizonte de 25 anos, a medicina seja capaz de ter controle sobre o envelhecimento, prolongando indefinidamente a vida das pessoas. A segunda diz respeito a uma entrevista do cientista americano, Derrick Rossi, na edição de 6 de julho de 2011, da revista VEJA. Este, mais moderado, fala do progresso das pesquisas em transformar células comuns em células-tronco e da possível criação de órgãos para uso em humanos, num horizonte de tempo que ainda não pode ser avaliado.

São duas visões distintas do potencial da medicina, dadas por cientistas da área, sendo que a primeira é claramente mais otimista que a outra (e por isso, talvez, muito questionada pela comunidade científica). Se a imortalidade está perto ou não é o de menos aqui. O objetivo imediato é falar sobre as conseqüências curiosas que ela pode trazer para as nossas vidas e especular sobre como alguns conceitos e instituições seriam afetados por ela. Eis alguns exemplos.

A prisão perpétua seria uma pena muito custosa para os governos e muito cruel para os criminosos. As juras do casamento teriam que ser alteradas rapidamente: “…na saúde e na doença…” (não faria mais sentido)”; “… até que a morte os separe.”, (a palavra acidental teria que ser acrescentada depois de morte). As ditaduras seriam mais terríveis do que já são, pois seriam exercidas por um homem só. Hoje ainda há esperança de que o filho que substitui o pai ditador seja um governante melhor. Os filhos não seriam prejudicados só nisso. Heranças? Nem pensar! A não ser que um acidente estranho venha a acontecer com os pobres pais. Isto, se houver filhos, porque, com a imortalidade, o controle populacional teria que ser rigoroso para evitar a superpopulação. Filhos, só para repor as perdas por acidentes fatais. E os índices de criminalidade como ficariam? Os mais pessimistas e menos pacientes dirão: vão aumentar porque só com um tiro se obrigaria alguém a largar do osso. Plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e muitos outros instrumentos teriam que ser repensados.

São aspectos curiosos da imortalidade, mas que não se comparam com o principal deles que é o modo como uma pessoa imortal passaria a ver a própria existência. Viver sabendo que um dia vai morrer é uma coisa. Bem diferente é viver sabendo que não morrerá nunca, a não ser por um acidente. Talvez um meio para entender isso seja regredir à mente de uma pessoa jovem, cheia de planos e ainda nem um pouco preocupada com a morte. Será que os imortais pensariam como os jovens mortais? Se isso for verdade, a imortalidade seria uma bênção. Mas, e se não for assim? E se a perspectiva da morte for o ingrediente mais valioso da vida, aquilo que a torna realmente especial? Não saberemos a resposta a menos que o Dr. de Grey seja na realidade um pessimista e que a imortalidade venha ainda antes do que ele pensa.

Anúncios

4 comentários sobre “Quem quer ser imortal?

  1. Abordagem sobre um aspecto muito interessante. Gostei
    Gostaria que vc também abordasse a clonagem que já
    está bem mais amadurecida (já e comum na pecuária !)
    que a eternidade.

    • Galvão – Em algum momento certamente vou falar desse assunto. Por enquanto, ainda não tenho um mote. Obrigado pela sugestão. Um grande abraço.
      Oscar

  2. Dias, continuo achando que você precisa conhecer um pouco mais sobre espiritismo. Primeiro na prática e depois na teoria (doutrina). Sei que isso pode parecer pouco científico, mas tenho certeza que depois você verá que toda essa conversa sobre imortalidade é desnecessária.

    • Ayrton – Não é preciso ser espírita para saber que a ideia de imortalidade, como tratada no texto, é implausível. No entanto, o que eu quis ressaltar é que o fato de saber que a duração da vida é limitada tem influência no modo como encaramos a própria vida. Acho que isso vale tanto para aqueles que acreditam que só temos uma vida, quanto para os que acham que temos muitas. Mesmo para esses últimos, imagino que cada uma delas seja especial. Um grande abraço.
      Dias

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s