Homem e meio-ambiente

Há cerca de 10.000 anos começava a era chamada de Holoceno, com o derretimento das geleiras que cobriam grande parte da superfície do planeta e a volta do clima ameno, depois de uma longa era glacial. Agora, em artigo publicado no The Economist (leia aqui), geólogos acham que uma nova era já se iniciou, o Antropoceno, caracterizada pela influência do homem no meio-ambiente. O artigo aponta para um aparente contra-senso ao afirmar que a Terra é um corpo celeste imensamente grande comparado a nós humanos e que, se repartida entre a população, caberia a cada um de nós 1 trilhão de toneladas do planeta. Mas a verdade é que somos pequenos mas bagunceiros, capazes de interferir na rotina desse gigante. Há muito se discute se (ou quanto) a nossa interferência nos ciclos do carbono e do nitrogênio poderia estar provocando efeitos deletérios no meio-ambiente (aquecimento global, diminuição da camada de ozônio etc.).

Se os geólogos têm razão, é preciso tomar providências para que o planeta não fique inabitável. Discussões e ONGs não faltam para lidar com este assunto. Porém, uma coisa é detectar que algo não anda bem e a outra, muito diferente, é descobrir o que fazer para consertar. As dificuldades para tratar desse problema são inúmeras, a começar pela própria natureza humana. Somos produto da evolução que nos dotou da característica de fazer o menor esforço possível e poupar energia para sobreviver. Espertamente, transformamos essa regra, que vale para a sobrevivência, na lei do menor esforço, que vale em qualquer situação. Assim, o ser humano não é atraído por medidas que lhe vão exigir sacrifícios de imediato para lhe devolver benefícios no futuro.

Sobrepõe-se a isso o fato de o problema estar atrelado a fortes interesses políticos e econômicos, pois as medidas que supostamente devam ser tomadas envolvem mudanças nas matrizes energéticas e nas práticas de produção e consumo dos países mais influentes. A ciência, a quem caberia abordar o problema com isenção, também está limitada em sua atuação porque as melhores cabeças estão na iniciativa privada ou a serviço de governos interessados em uma ou outra recomendação dos cientistas. Finalmente, não há um foro adequado onde se possam definir os princípios para servir de base à atuação dos governantes, empresas e sociedade. (Metas casuísticas e não consensuais, como as definidas em foros internacionais sem representatividade adequada, não têm grande valor.) Infelizmente somos uma coleção de países em disputa entre si e não um império planetário (ou galático), como nas histórias de ficção científica.

É muito provável que as decisões futuras mais importantes – e não necessariamente corretas – venham a ser tomadas intempestivamente, tão logo as tragédias aconteçam. Não é raro ver as discussões sobre o clima se aprofundar quando as estações do ano trazem recordes de chuva, temperatura e furacões. O acidente com a usina nuclear de Fukushima trouxe de volta o debate sobre a viabilidade das usinas nucleares, que estava em banho-maria pelo longo tempo sem acidentes dessa natureza.

Nesse cenário é difícil ser otimista, mais ainda se as partes debatedoras não abandonarem os seus respectivos dogmas. Um deles é o de que o meio-ambiente deva ser preservado a qualquer custo. O outro é o de que a qualidade de vida da sociedade não pode ser diminuída. Nenhum deles é cláusula pétrea. Há vida entre esses dois extremos.

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Um comentário sobre “Homem e meio-ambiente

  1. Oi Oscar. Como tem passado?
    No que se refere à questão de geração de energia de base eu só admito as usinas nucleares como solução, pelo menos a longo prazo, quando as fontes naturais se esgotarem. É necessário, pela natureza dos problemas que podem causar ao meio ambiente, um investimento contínuo nesta modalidade de geração, sempre atualizando as usinas mais antigas com as novidades tecnológicas de controle do processo.
    Não teria havido um erro grosseiro de projeto na usina de Fukushima ao se deixar a mercê do tsunami o grupo gerador responsável pelo resfriamento do reator quando este fosse desativado?
    A estranha decisão alemã de suspender a geração nuclear, se acompanhada por outros países na Europa, pode agravar ainda mais o problema. Se admitirmos que se no futuro por necessidade, esta modalidade de geração tiver que ser retomada, o fará com considerável atraso causado pelo tempo em que não foram efetuados investimentos tecnológicos responsáveis por uma maior segurança na operação.
    O fato é que risco zero não existe, porém neste tipo de geração todo cuidado é pouco e é razoável admitir investimentos maiores para que os inevitáveis acidentes causem um menor impacto ambiental possível.

    Abraço,

    José

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