O dia seguinte no LHC

      LHC, 13 de fevereiro, 20h. Está tudo pronto para o experimento mais importante já realizado no Grande Colisor de Hádrons (LHC), o acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares – CERN. A ciência está próxima de conhecer a partícula de Deus – o bóson de Higgs – a última que falta para completar o Modelo Padrão da física de partículas. Os equipamentos foram configurados para trabalhar em um nível de energia nunca antes alcançado em um experimento científico. A ansiedade é alta por parte dos profissionais envolvidos com o experimento. Três, dois, um, ziiiiizzzz…uuuummm.

      LHC, 13 de fevereiro, 22h. A situação estava ficando mais calma. Já fazia 2 horas que o Diretor do CERN tinha recebido a mensagem da Sala 8B com a notícia preocupante. Imediatamente, ele e o Chefe do Projeto haviam se dirigido para lá. Agora, depois de toda confusão, com pessoas correndo de um lado para outro, dando e recebendo ordens para resgatar um mínimo de normalidade à situação na Sala 8B, eles já podiam pensar mais racionalmente sobre o que fazer em seguida. A primeira providência foi comunicar a todas as famílias dos pesquisadores que trabalhavam na Sala 8B que eles ficariam incomunicáveis durante certo tempo, alegando medida de segurança necessária para a realização dos experimentos. Em seguida, foi cortada toda comunicação entre o pessoal da sala com o resto do LHC e com o exterior.

      LHC, 14 de fevereiro, 4h. A situação estava ficando mais clara. Acontecera uma daquelas tragédias antecipadas, mas que tinham uma probabilidade ínfima de acontecer. O LHC não fora transformado em um buraco negro, nem fora transportado para outra época no tempo. Acontecera algo ainda mais improvável. Os cientistas já sabiam que, a cada instante, o futuro se abre em um leque de diferentes realidades – ou universos paralelos – que nascem de cada momento presente. O experimento no acelerador de partículas, por alguma razão, provocara a união parcial de duas linhas de realidade, como acontece quando, numa ligação telefônica, duas linhas se cruzam. Somente a Sala 8B fora afetada, talvez por causa da sua localização como posto avançado em relação ao acelerador. Os cientistas daquela sala, que eram em número de 15, agora formavam um grupo de 30 pessoas. Dois grupos de pessoas que deveriam estar em universos diferentes acabaram presos no mesmo universo. Cada cientista com a sua duplicata; idênticos, original e cópia.

      LHC, 14 de fevereiro, 8h. Estavam a ponto de tomar a difícil decisão. A vida dessas pessoas não poderia continuar assim. Seres idênticos com uma única família, os mesmos amigos, um único mundo. Um indivíduo de cada par teria que abdicar desse mundo. Pensavam, também – ainda que com menor prioridade – na continuidade das pesquisas. O vazamento de qualquer informação sobre o que acontecera seria o fim do projeto e o fechamento do laboratório; um triste fim para uma pesquisa que estava prestes a descobrir o último segredo do universo. Depois de muito discutir, haviam decidido pela solução extrema, com a concordância do Diretor e do Chefe do Projeto.

      LHC, 14 de fevereiro, 12h. Estava tudo preparado. O sorteio já havia sido feito para definir qual indivíduo de cada dupla seria sacrificado. A morte seria rápida e indolor, por meio de uma injeção letal aplicada por cada um dos indivíduos na sua duplicata. Os corpos seriam descartados sem deixar vestígios. Tudo isso poderia ser feito com os recursos disponíveis no LHC. E assim se procedeu.

      LHC, 14 de fevereiro, 20h. A Sala 8B voltava à normalidade, com os seus costumeiros 15 cientistas, ainda que eles não conseguissem mais ser as mesmas pessoas de antes. Tinham cometido assassinato e isso pesava em suas consciências. Para não piorar ainda mais a situação, eles procuravam afastar o pensamento de outro fato incômodo: sabiam que em muitos outros universos paralelos 30 pessoas ainda lutavam para achar uma saída para aquela fatídica situação.

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3 comentários sobre “O dia seguinte no LHC

  1. Ñ é tão ficção….isso aconteceu na usina nuclear do Japão depois do Tsunami. Alguns homens arriscaram a vida p sanar o problema do vazamento..

  2. Caco, ficção e realidade se complementam. Não precisamos ir tão longe. Às vezes somos colocados frente a nós mesmos e precisamos tomar decisões complexas. Mas as alternativas mais eficazes talvez sejam também as mais simples. Pode ser que existam muitas outras formas de encarar uma dada situação. Fiz minha opção pelo modelo taoísta:

    “Quem conhece os homens é inteligente
    Quem conhece a si mesmo é iluminado
    Vencer os homens é ter força
    Quem vence a si mesmo é forte
    Quem sabe contentar-se é rico
    Agir fortemente é ter vontade
    Quem não perde a sua residência, perdura
    Quem morre mas não perece, eterniza-se”

    Lao Tse – Tao Te King (Capítulo 33)

  3. Todos os dias ficamos frente a frente com nós mesmos e precisamos tomar decisões. Levantar-se da cama e viver a vida ou continuar dormindo e sonhando. Alimentar o corpo e a alma ou abandoná-los ao deus-dará. Levar a vida adiante, traçando seus caminhos ou deixar-se levar pelos ventos mais fortes e pela omissão. Ser generoso em nossas ações e sentimentos ou avarento e ciumento. Ser simpático com as pessoas ao nosso lado, ou ignorá-las. Amar ao próximo como amamos a nós mesmos, sem reservas e sem constrangimentos. Ao olharmos para dentro de nós precisamos decidir quem será o ser vencedor, quem libertaremos para a vida e quem será sacrificado. E depois ficaremos eternamente amargando nossa derrota, ou em júbilo por nossa vitória.

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