Catálogo messier

     Se houvesse, naquele planeta, um ser capaz de enxergar ele não conseguiria ver nada além de um minúsculo ponto luminoso no céu. Tudo o resto era escuridão. Mas o planeta não abrigava nenhum observador e nunca abrigara um em toda a sua existência. A escuridão até que lhe caía bem pois escondia a sua superfície fria e desolada. Ele não tinha outra companhia a não ser aquele ponto luminoso – uma estrela que não permitia que ele ficasse à deriva, mantendo-o teimosamente sob a sua débil atração.

     Os dois já estiveram bem mais próximos. Isto aconteceu em épocas remotas quando os raios da estrela o aqueciam confortavelmente. Havia, também, outros companheiros que compartilhavam o brilho da estrela, mas eles foram pouco a pouco se afastando até não mais ser vistos.

     Há muito tempo todos os corpos celestes afastavam-se uns dos outros. O universo estava se expandindo e se tornando cada vez mais rarefeito. Estrelas não nasciam mais. A vida há muito não existia. Não existiam, portanto, aqueles que costumavam descobrir e catalogar corpos celestes, dando-lhes a designação M (de Messier) seguida de um número. Esse sistema solar nasceu quando ninguém mais estava lá para catalogá-lo. Ele seria, digamos, o Messier x, ou Mx.

     O universo continuava a se expandir, indiferente ao fato de que isso impedia a continuidade da vida de qualquer espécie, em todos os seus rincões. Ironicamente, entretanto, não havia ninguém para questionar o despropósito dessa sina. Qual é a razão de um universo sem vida? Por que a vida teria surgido um dia, contra todas as chances, para desaparecer dessa maneira? Qual o destino de um universo que se expande indefinidamente? Ninguém mais estava ali para pensar nestas questões.

     O pequeno ponto luminoso ficava cada vez menos luminoso visto do seu companheiro solitário. Estavam cada vez mais distantes um do outro. Além disso, a estrela já estava chegando ao final de sua vida. Na verdade o processo se iniciara há tempos. O combustível nuclear que alimenta o seu brilho estava diminuindo rapidamente fazendo a estrela contrair-se, até que, finalmente, a sua massa submetida a uma compressão intensa entrou em colapso emitindo uma grande onda de radiação. O longínquo planeta escuro se iluminou, o espaço em torno se retorceu. O Mx perdeu os últimos traços de sua identidade.

     Novamente fazia falta a presença de um ser inteligente para entender o que estava ocorrendo. Estrela e planeta não mais se comportavam como corpos celestes na imensidão do espaço, girando em órbitas lentas. Em outra perspectiva, eles pareciam-se mais com um próton e um elétron agitando-se freneticamente, num espaço microscópico. Imenso ou minúsculo, lento ou rápido? Quem poderia distinguir uma coisa da outra na falta de uma referência absoluta? Indiferentes a isso, próton e elétron buscavam obstinadamente outros parceiros com quem se combinar para criar novas partículas e dar início a um novo universo.

     A vida estava prestes a ter uma nova chance.

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Um comentário sobre “Catálogo messier

  1. É isso aí Caco. Quem nos garante que o macrocosmo e o microcosmo
    não são a mesma coisa mas observados por nós em “direções” 180 graus apartes ?

    abs, Galvão

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