Betelgeuse

         Betelgeuse está cansada. Ela não é mais jovem, mas ainda guarda os encantos que sempre a distinguiram de suas parceiras. Seu nascimento fora muito conturbado prenunciando que naquele momento nascia uma estrela de verdade. A notícia espalhara-se com a velocidade da luz, iluminando o universo e retorcendo, ainda mais, os seus recônditos inescrutáveis. Desde então seu brilho não mais deixou de ser percebido entre os que dele se aproveitavam e os que dele sentiam inveja.

         Ela sabe que, assim como foi o seu nascimento, também a sua morte será conturbada. Muito mais conturbada. Até aqueles que nunca a conheceram terão a notícia da sua partida. Para reverenciar a estrela que deixará saudades. Mas ela nunca se preocupou com a morte. Muito menos agora que a sua missão está para ser concluída.

         Nesse tempo todo ela tinha um único ressentimento: o de não ser fértil e poder gerar a semente da vida. Ela não entendia muito bem porque apenas as mais franzinas e discretas tinham essa capacidade. Ela – assim como muitas outras mais radiantes – poderia executar essa missão tão bem quanto as escolhidas, mas tinha sido destinada a executar uma missão bem menos charmosa, ainda que muito nobre. Ela se esforçara o tempo todo para que esse ressentimento não prejudicasse o seu trabalho e continuara a fazê-lo com todo o ânimo e dedicação. Agora ela olha para o passado e vê que fez a coisa certa. E está muito orgulhosa de si.

         Vez ou outra ela pensa no sofrimento que pode causar e sente algum esmorecimento. Reanima-se, novamente, quando entende que nenhum sofrimento pode ser significativo quando comparado aos seus próprios. Ela não compreende como poderiam sentir dor aqueles minúsculos organismos que mal podem ser detectados por ela, do alto da sua grandiosidade e poder. Nenhuma dor poderia ser comparada àquela que ela sentia e que vinha das suas entranhas, deixando-a, continuamente, à beira de explodir.

         Ela se lembra como fora persistente em sua tarefa. Atraíra o projétil para o alvo com habilidade, paciência e perseverança. Pouco a pouco ele fora se aproximando, passando mais perto a cada volta até que, finalmente, entrou na rota de colisão. Será um evento devastador. Mas será, também, uma semeadura de novas vidas. Outras parceiras executaram tarefas semelhantes, mas ela tem certeza que a sua missão será muito mais grandiosa. Ela sabe disso porque os personagens que ela escolheu – projétil e alvo – são aqueles que mais têm despertado admiração entre as suas parceiras: o brilhante cometa, chamado Halley, e o pequeno planeta azul, chamado Terra, orbitando uma estrela franzina e frágil, chamada Sol. Betelgeuse secretamente chama a sua missão de “O encontro do beija-flor com a flor azul”. Esse encontro semeará a vida em novos recantos do Jardim do Éden. Ela está muito feliz em promovê-lo.

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5 comentários sobre “Betelgeuse

  1. Caco, parabéns, como sempre. O seu texto somente comprova o que venho pensando: o universo está se tornando um lugar muito chato e previsível. Feliz era Pasacal que andava apavorado com o silêncio eterno desses espaços infinitos. Até a NASA, por meio do seu satélite GP-B parece ter chegado mais próximo da comprovação da teoria da relatividade, de Einstein. Nada contra o espetáculo que será a chegada do segundo sol, mas há muito perdemos a beleza da surpresa. Então também vou apelar para a poesia (minha) no meu comentário:

    O preciso e o impreciso

    É preciso deixar de existir.
    Um impreciso ser me bastaria.
    Roer as cordas e emudecer a canção
    como o silêncio das horas
    a talhar em meu rosto
    um novo traço em minha expressão.

    Traço caminhos e planos imprecisos.
    Rôo o silêncio que me bastaria
    como um atalho na profunda escuridão.
    A canção me é o silêncio.
    Um refrão tardio a desvendar
    um pedaço vazio da tarde em questão.

    Preciso de um impreciso perdão.
    De mim mesmo, a dúvida: eterna questão.
    Mais um dia, mais uma noite
    e madrugadas em vão.
    Uma estrela que morre,
    Entre o preciso e o impreciso, desvão.

    • Caro Paul – O blog fica mais poético com os seus comentários. Valeu a contribuição. Contra a chatice do universo só há uma saída: criarmos o nosso próprio em nossas cabeças, onde as leis da física não precisam ser obedecidas e precisão e imprecisão são irrelevantes. A poesia é uma forma de fazer isso e você encontrou o caminho.
      Um grande abraço.
      Caco

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