Futuro incerto

         As pessoas, em geral, não pensam no futuro da humanidade. Mal pensam no seu próprio futuro, envolvidas que estão com as agruras do dia-a-dia. Vez ou outra, quando somos surpreendidos por uma catástrofe, ou por um ato de violência extrema, ou por uma nova epidemia, logo pensamos: “desse jeito, a humanidade não vai durar muito”.

         Não é fácil pensar no futuro da humanidade, ainda mais se quisermos focalizar um futuro muito distante, numa escala cosmológica. Basta lembrar que o Homo sapiens apareceu por aqui há apenas 200 a 300 mil anos, período de tempo muito curto comparado àquele que decorreu desde o surgimento do primeiro organismo vivo, há mais de 3 bilhões de anos. Neste aspecto, o passado não pode servir de referência para o futuro porque, com sua chegada, o ser humano passou a ser um agente de transformações quase tão importante quanto a própria natureza. As mudanças que poderão acontecer daqui por diante não podem ser espelhadas, portanto, no que aconteceu até agora.

         O texto que publiquei neste blog, intitulado “Aurora boreal”, sobre este assunto, foi uma ficção despretensiosa. Falar seriamente sobre ele é muito mais difícil e, em razão disto, vou me limitar a especular (ainda despretensiosamente) sobre os fatores que têm poder de influir, positiva ou negativamente, na evolução da espécie humana. Não se trata de falar sobre evolução no sentido de progresso ou desenvolvimento social, mas sim de crescimento populacional e diversidade genética, que caracterizam a consolidação de uma espécie. Nesta tarefa há que se levar em conta que os seres humanos se uniram à natureza como agentes das futuras transformações por meio de suas ações que, voluntária ou involuntariamente, afetam a nossa existência.

         A lista abaixo apresenta os fatores supostamente em ordem decrescente de participação da natureza e crescente em relação à responsabilidade do homem. Admito que esses fatores possam mudar radicalmente no futuro, o que torna a tentativa de prever o destino da humanidade uma tarefa ainda mais complexa. Entendo que os fatores mais importantes são:

  1. Catástrofes naturais (terremotos, vulcões, furacões, impactos de corpos celestes etc.)
  2. Mudanças ambientais (aquecimento global, glaciação, transformação do solo e da atmosfera)
  3. Pandemias e outras manifestações de doenças em grande escala
  4. Guerras e conflitos em geral (disputa por poder, recursos, ideologia)
  5. Avanços científicos e tecnológicos (genética, produção de energia, produção de alimentos, exploração espacial e outros)

         Os itens 1, 3 e 4 levam invariavelmente à redução da população e da diversidade genética, enquanto que os itens 2 e 5 são de mão dupla, podendo atuar na redução ou expansão daqueles atributos. As ações humanas contribuem em todos os itens, com exceção do primeiro. Com a sua tecnologia, em especial na área da genética, o homem poderá alterar significativamente a natureza humana. Com sua capacidade de manipular o genoma, ele poderá controlar e sobrepujar o processo natural que cria e seleciona as mutações genéticas aleatórias e que foi o responsável até aqui pelo processo de evolução das espécies. Isso pode visar tanto a criação de defesas contra as doenças como o aperfeiçoamento do próprio ser humano.

         Portanto, se a natureza não nos aniquilar com as suas armas letais, o futuro está em nossas mãos, ou melhor, em nossas cabeças. O sucesso da espécie vai depender de encontrarmos o conjunto adequado de valores morais e definirmos as regras éticas que garantam o bom uso de todos os mecanismos que estiverem à nossa disposição. (Um trabalho recente sobre os mecanismos que estão subjacentes à manifestação do caráter em um indivíduo pode ser lido aqui.)

         Em outras palavras, temos a chance de escolher o rumo certo ou o errado, a menos que a natureza, sub-repticiamente, já tenha nos equipado com certos instintos que não possamos controlar. (No blog 13.7 há uma interessante discussão sobre um possível “instinto assassino” inerente à natureza humana. Para ler, acesse aqui, aqui e aqui.) Entretanto, pensar nessa possibilidade seria invocar a teoria da conspiração por parte da própria natureza. Embora alguns episódios recentes possam dar credibilidade a esta tese, é melhor não acreditar nisso.

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