Ilha do medo e a navalha de Ockham

         Assisti recentemente ao filme “Ilha do medo” cujo tema se entrelaça com o dos artigos mais recentes deste blog: a complexidade da mente humana. Desculpem-me por insistir neste tema. É que eu não consigo deixar de pensar nele (Rá! Rá!). Em “Realengo e a Universidade de Londres”, falei da dificuldade de diferenciar uma mente perversa de uma mente doente; em “Rosa negra”, falei dos acontecimentos que mudam a nossa percepção da realidade; e em “A casa da bruxa boa”, comento um texto da escritora Lya Luft onde ela fala de uma experiência pessoal em que sua mente divaga em um mundo de sonhos que se sobrepõe à realidade.

         No filme “Ilha do medo” os personagens são criminosos que estão cumprindo pena, como pacientes, em uma instituição para doentes mentais, isolada em uma ilha. São pacientes, em geral esquizofrênicos, que vivem em mundos criados por suas mentes, nos quais são personagens de conspirações em que acreditam cegamente. Evidentemente, como se trata de um filme, os sintomas são mostrados de uma forma exagerada para criar um clima de suspense. Mas eles são reais, como demonstram os diagnósticos de inúmeras pessoas que sofrem de males semelhantes. No filme “Uma mente brilhante”, baseado na história real do cientista John Nash – o protagonista tinha também alucinações em que se via enredado numa trama conspiratória.

         Quero aproveitar este assunto para especular sobre dois pontos. O primeiro diz respeito à razão pela qual somos tão fascinados por teorias de conspiração. Nenhum fato real tem muita graça se não houver, por trás dele, uma suspeita de conspiração. Foi assim com a morte do presidente americano JFK, com a chegada do homem à lua, com a guerra do Golfo, só para citar alguns exemplos que me vêm à cabeça. A razão de tal obsessão parece estar vinculada, de algum modo, aos distúrbios mentais mencionados acima (por sorte nenhum psiquiatra é leitor deste blog). Se não, como explicar tamanha coincidência? A propensão a suspeitar de conspiração talvez tenha ficado enraizada em nosso cérebro durante nossa história evolutiva e ela se manifesta hoje, de forma consciente e controlada, como um tipo de fascínio por histórias conspiratórias, e de forma descontrolada e inconsciente, como um distúrbio mental.

         O segundo ponto refere-se ao fato de que em sua esmagadora maioria as teorias de conspiração acabam dando em nada e a verdade que prevalece é a do fato puro e simples, para decepção da grande maioria, diga-se. Mas não para a decepção do frade inglês William de Ockham. Muito espertamente, ele deve ter observado esse fato (de que as teorias conspiratórias são sempre incorretas) e, a partir disso, enunciou a sua famosa regra, conhecida como “navalha de Ockham”, que diz (simplificadamente): “entre as explicações para um determinado fenômeno, a mais simples é a mais plausível”.

         Depois dessas digressões volto a falar do filme “Ilha do medo”: vale a pena assisti-lo.

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4 comentários sobre “Ilha do medo e a navalha de Ockham

  1. Prezado Caco,

    Gostaria de sugerir que ha um outro fator que explica a incidencia de teorias de conspiracao. Em paises do Oriente Medio por ex, onde ha um baixo grau de conhecimento de como paises ocidentais funcionam, e onde grande maioria do povo tem baixo grau de educacao e nao confia na imprensa ou no governo locais, as conspiracoes mais estapafurdias acontecem…como por ex que 9/11 nap aconteceu, ou que foi causado pela CIA ou pelos judeus

    O Brasil vive situacao semelhante. Depois de viver tantas situacoes surrealistas , o Brasileiro desconfia de tudo e acha que todo o mundo se comporta e as pessoas sao movidas pela mesma forma que no
    Brasil. Esse aspecto educacional e cultural e’ a meu ver importante para explicar a incidencia de teorias absurdas de cosnpiracoes.

    • Otavio,
      Pelo que entendi, vc acredita que as teorias de conspiração surgem somente entre povos culturalmente mais atrasados? O que dizer, então, do sucesso entre os americanos, de filmes e livros que tratam de conspirações?
      Abs.
      Caco

  2. Caco,

    Recentemente conclui um pequeno texto sobre a construção permanente da verdade no âmbito das organizações. Creio que é um tema realmente complexo. Uma das discussões filosóficas mais antigas da humanidade diz respeito ao que vem a ser a verdade. Movemos nossa vida segundo aquilo que acreditamos como sendo “verdades”, aparentemente imutáveis, mas invariavelmente, transitórias. Seqüenciadas de forma a construir uma determinada realidade que expresse fidelidade, segundo um sistema de valores. Nossa percepção sobre o que vem a ser a realidade pode ter profundas implicações na formação do caráter individual e coletivo na sociedade.

    O que pode ser a verdade? A filosofia teria ao menos cinco linhas de pensamento para iniciar uma boa discussão: a verdade como conformidade a uma regra, como correspondência, como revelação, como coerência e como utilidade. Certamente toda a discussão em torno do tema, ainda assim, desembocaria numa definição incompleta.

    Todas as linhas de resposta consideram a existência de uma “realidade” justificável. Desde visões puramente materialistas, até as metafísicas e mesmo teológicas, a verdade é um eterno processo de busca interior do indivíduo a partir do confronto do conhecimento com a observação das oscilações entre as práticas cotidianas e os discursos (HABERMAS, 2004), do despertar do senso crítico e da aceitação ou não de uma determinada realidade.

    O que pode tornar a realidade perceptível e operacionalizável, sob o aspecto de nossas ações práticas é a comunicação (a mídia ajuda muito nisso) e as possibilidades de interação. A comunicação, num espaço dialógico, pode alinhavar a perspectiva do consenso e fazer a verdade avançar na construção da realidade, onde as decisões sejam abrangentes em relação ao bem comum.

    Construir ou reconstruir a verdade não é tarefa corriqueira, e, portanto, mudar a percepção sobre determinada realidade pode implicar numa busca além da consciência cotidiana, na libertação em relação à lógica e à razão, ou seja: dar espaço ao sonhar.

    “Sonhar” pode significar dar vazão à energia vital capaz de trazer à discussão novos aspectos que sustentam a verdade ou a derrotam como não-verdade: experimentar um olhar sobre novos paradigmas. Nesse contexto surrealista pode ser possível despir-se de preconceitos e aprofundar análises e discussões profícuas sobre o tema. Uma boa referência é o livro abaixo:

    HABERMAS, J. A ética da discussão e a questão da verdade. São Paulo: Martins Fontes, 2004

    • Caro Paul, Você foi fundo no assunto. Apresentou definições de verdade para todos os gostos: conformidade a uma regra e correspondência, para os cientistas; revelação, para os espiritualistas; e coerência e utilidade, para os demais mortais. De todas, acho que a mais utilizada e a mais perigosa é esta última, a verdade como utilidade. Quem já não utilizou uma “verdade” para a sua própria conveniência? Verdade, realidade e natureza são conceitos que mexem com a nossa cabeça e, mais e mais, acredito que cada um tem o seu próprio modo de enxergá-los. Abs. Caco

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