Rosa negra

O escritor de ciências, Marc Kaufman, fala de seu último livro no blog 13.7 e diz que “… estou ficando um pouco confuso sobre essa coisa chamada natureza. Isto porque estou lendo uma nota recente da Universidade de St. Andrews, do Reino Unido, que fala sobre a possibilidade de existência de alguns mundos onde as plantas são negras e não verdes (leia aqui). Quando as pessoas pensam em vida fora da terra…isto levanta uma das mais intrigantes perguntas: Como a descoberta de vida, atual ou passada, fora da terra, mudaria o nosso senso do que é a natureza?”

O escritor está se referindo, como ele explica em outras passagens do livro, ao que ele considera o conceito de natureza que a maioria dos indivíduos tem, ou seja, tudo aquilo que nos cerca, que influencia o nosso dia-a-dia. Segundo ele, a chuva, a neve, as marés são parte da natureza, mas a maioria não considera as estrelas ou o espaço interestelar como natureza. Para a maioria, as estrelas e planetas no céu são simples imagens, como quadros dependurados nas paredes de nossas casas, distantes o suficiente para não participar de nossas vidas. Entretanto, saber que existe vida lá fora de alguma forma alteraria essa visão?

A questão posta pelo escritor nos faz pensar nas tantas vezes em que o homem mudou a sua ideia sobre a natureza. Nossos ancestrais mais primitivos enfrentaram transformações radicais do clima (até mesmo uma era glacial) que alteraram significativamente o meio ambiente obrigando-os a se adaptar a uma nova realidade. Outras vezes, movidas pela espiritualidade estimulada pelas religiões, sociedades inteiras mudaram o seu modo de encarar o mundo, redefinindo o que chamavam de natureza. A comunicação e a arte também foram agentes de transformação da natureza. Quando menciono esses exemplos não quero me referir à mudança de vida (maior conforto, mais entretenimento e progresso) que eles propiciaram aos indivíduos, pois neste caso eu deveria incluir uma infinidade de outras atividades que também contribuíram para isso. Refiro-me à nova forma de enxergar o mundo, ou a natureza, que essas atividades propiciaram ao indivíduo. É o mesmo sentido, acho eu, a que o escritor acima se refere quando questiona se a descoberta de vida fora da terra alteraria a nossa visão da natureza.

A ciência, mais do que todas as atividades acima, obrigou-nos a mudar o conceito de natureza. De uma terra plana passamos a viver numa terra esférica; do centro do sistema solar fomos deslocados para a periferia; quando éramos cientes de que nossa espécie era imutável, acabamos por descobrir que viemos de ancestrais esquisitos; chegamos até a visitar a Lua, comprovando que ela não era um simples círculo brilhante no céu. Como se isso ainda não fosse suficiente, a ciência diz que podemos estar provocando um super aquecimento em nosso planeta, poder que, antigamente, só era atribuído aos deuses. Mais radical do que tudo isso é o que afirmam algumas teorias científicas sobre a fragilidade do que chamamos de realidade, que pode não passar de uma concepção subjetiva do ser humano.

É verdade que algumas dessas constatações não afetaram grande parte da população que continuou com o seu conceito de natureza inalterado. Alguns por não acreditar nelas e outros por não se interessar por elas. Creio que uma possível descoberta de vida primitiva, ou até de uma rosa negra, fora da terra, também não teria grande impacto na população. Todavia, muito diferente seria se a rosa negra fosse flagrada sendo regada por alguém.

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3 comentários sobre “Rosa negra

  1. Caco, muito bom!!! “livre pensar é só pensar”. Entendo que a natureza somente mantém o seu significado original enquanto não sofre interferência. O natural torna-se artificial quando o homem busca a sua libertação na relação com essa mesma natureza, por meio do trabalho, para sua subsistência finita e terrena. É um processo irreversivel. Penso que o homem, senso comum, não mudou sua idéia sobre a natureza. Mudou a natureza em seu favor e também contra si próprio. A natureza humana é assim mesmo: uns não se intessam, outros não acreditam, e a vida segue seu curso, mesmo diante de nossa perplexidade.

    • Paul, Lendo seu comentário ocorre-me que o homem veio para mudar todo o processo “natural”, para o bem ou para o mal. Ou ele é o pináculo de um plano bem engendrado, ou um virus com o qual o Criador não esperava. Um grande abraço. Oscar

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