A Escola de Realengo e a Universidade de Londres

     É difícil imaginar que a Escola Municipal de Realengo e a University College London (UCL) tenham algo em comum além do fato de serem ambas instituições de ensino. Os acontecimentos recentes, porém, estabeleceram essa ligação ao colocá-las diante do problema da complexidade da mente humana. Em Realengo ocorreu o massacre de jovens estudantes em plena sala de aula, que chocou o país. Na UCL, pesquisadores divulgaram os resultados de suas pesquisas com o cérebro humano que dão esperanças de que o homem venha a entender a mente humana, mas, ao mesmo tempo, mostram quão complexa será essa tarefa (leia aqui). Realengo viu, com espanto, a forma como a mente humana pode se manifestar como agente de um crime hediondo. A UCL procura entender a forma como ela se origina internamente de um intrincado conjunto de conexões, as chamadas sinapses, entre uma infinidade de neurônios.

     Essas duas situações nos remetem à velha questão do livre arbítrio. O ser humano é dotado de livre arbítrio, i.e., da capacidade de tomar decisões ou realizar ações de uma forma autônoma, que não seja uma resposta automática aos estímulos que vêm do ambiente que o cerca? Se existe tal livre arbítrio, como ele se manifesta no cérebro? Apesar das pesquisas citadas, ainda estamos longe de entender os mecanismos da mente humana e, em especial, esse do livre arbítrio. No entanto, é fácil de entender que essas questões tem implicações diretas na atribuição de responsabilidade aos atos das pessoas e na definição dos princípios morais que devem reger a nossa vida em sociedade.

     A visão científica dá conta de que, na história da evolução, o ser humano incorporou a característica de fazer o bem ao próximo porque isto dava a ele uma vantagem na luta pela sobrevivência, permitindo que a sua espécie se disseminasse. Todavia, os indivíduos não são todos iguais e alguns têm maior empatia do que outros pelo seu semelhante. Com o tempo, as regras de conduta (leis) foram sendo aperfeiçoadas para lidar com essas diferenças e fazer com que todos ajam segundo os mesmos princípios morais. Os indivíduos que desobedecem a essas regras são punidos, se o fazem por vontade própria, ou são tratados clinicamente, se o fazem por desvios de comportamento considerados como doença. Distinguir entre vontade própria ou desvio de comportamento pode, portanto, fazer muita diferença no destino do cidadão transgressor. Quem garante que a justiça tem os meios necessários para fazer essa distinção? Apesar de os veredictos mais complicados serem dados com base em laudos médicos, quem garante que os laudos estão corretos se ainda não compreendemos bem o funcionamento da mente humana?

     As pesquisas com o cérebro humano vão continuar e, certamente, ajudarão o homem a compreender melhor a sua mente, contribuindo no diagnóstico e tratamento das doenças mentais. Mas será que há um limite para esse conhecimento? Será que um dia compreenderemos o que é a natureza humana? Ou concluiremos, simplesmente, que o que nos diferencia dos outros animais são apenas algumas (ou muitas, que sejam) conexões a mais em nossos cérebros?

     Enquanto não tivermos respostas para essas perguntas e estivermos funcionando como um computador em modo degradado, será indispensável utilizar, no mínimo, a regra de ouro de Confúcio: “Nunca faça aos outros aquilo que não deseja que façam a você”.

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5 comentários sobre “A Escola de Realengo e a Universidade de Londres

  1. Caro Caco,

    O que ocorreu na escola do Realengo deixou mesmo perplexidade para nós. Entendo que a questão levantada não foi apropriadamente divulgada pela mídia, mas somente a questão do tal buling.

    A abordagem do que lá ocorreu entendo que também deve perpassar pela mente humana: como distinguir a maldade da doença.

    O convívio em sociedade exige o cumprimento de normas de convivência. Entendo que em seu primórdio, a aplicação de uma pena ao transgressor não significava punição, mas sim uma medida para ressocialização do indivíduo. Ou seja, não significava a sociedade buscando uma vingança do mal perpetrado contra ela, mas sim uma ferramenta para realocar na sociedade o indivíduo que não cumpriu as regras de convivência.

    Nesse enfoque, que acredito buscado por nossas cortes, em especial o STF, a análise madura dos mecanismos da mente humana será fundamental para compreender e tentar alcançar a ressocialização dos transgressores.

    Abraços!

    • Caro Venâncio, Você tem toda razão em corrigir o termo punição para ressocialização. Esta deve ser a palavra correta para o objetivo do sistema judicial. Um grande abraço. Oscar

  2. Olá Caco
    Eu como educadora, me questionei pela atitude do rapaz de Realengo..Essas doenças sempre existiram e eram menos estudadas que hoje, e menos violentas nas reações.Hoje há muito mais remédios , estudos, mas há mais solidão, menos contato entre os membros da familia , mais competição entre as pessoas etc…A mídia disse que apos a morte da mãe , ele se tornou mais solitário e isolado..
    Desculpa, se o seu comentario é mais profundo, sobre o célebro humano, pois não li o artigo em ingles, mas esta é a minha observação…abraços alice

    • Alice,
      O artigo mostra alguns progressos no entendimento do cérebro humano, mas, principalmente, mostra que ainda estamos longe de entendê-lo completamente. Enquanto isso, acho que a sociedade deve cuidar desses problemas que você aponta (solidão, família, competição) para evitar as tragédias como a de Realengo.
      Abs.
      Caco

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