Razão e fé

Na edição da revista VEJA, de 2 de fevereiro passado, li uma crítica sobre o livro “Em defesa de Deus” (The case for God, na versão original), da escritora Karen Armstrong. Interessei-me pelo assunto e acabei por comprar e ler o livro. Foi uma decisão acertada. É uma obra de referência, escrita com a imparcialidade possível a uma pessoa devota e que pode ser endereçada a ateus, agnósticos e crentes na mesma medida. E, ainda, a seguidores de qualquer religião.

É a história, contada de forma minuciosa, do embate entre religião e ciência ou razão e fé, tendo como subsídios os ritos e tradições das diferentes culturas, assim como as escrituras sagradas das diferentes religiões, e enriquecida pelos depoimentos dos principais contendores: os filósofos, teólogos e cientistas mais famosos que já passaram por este mundo ou os que ainda nele vivem. Deus, o personagem central, assume diferentes papéis com o passar do tempo e de acordo com as crenças e religiões, ora como um ser poderoso que pode dar vazão à sua ira por meio das catástrofes naturais, ora como um ser de infinita bondade e sabedoria, criador de todo o universo ou, recorrentemente, como algo transcendental impossível de ser definido.

A narrativa compreende o intervalo de tempo desde 30.000 anos antes de Cristo até os dias atuais e mostra períodos em que razão e fé se aproximam e outros em que se afastam. O auge da aproximação acontece no século XVIII quando Newton apresenta a sua teoria da gravitação e, sendo um homem religioso, vê em sua própria teoria a prova da existência de Deus, que teria colocado todos os corpos celestes meticulosamente em suas posições, a partir do que as leis da gravitação se incumbiriam de mantê-los em órbitas estáveis. A religião passou, então, a considerar a ciência como sua aliada e a teologia da razão foi o subproduto desse casamento. As escrituras poderiam ser interpretadas literalmente e Deus poderia ser considerado o ser supremo criador do universo, um ser com atributos infinitos, mas ao alcance do nosso entendimento.

A era pós-moderna, entretanto, mostra que ciência e religião não podem se sobrepor. A teoria da evolução das espécies, de Darwin, e as descobertas na área da astronomia não são consistentes com os ensinamentos bíblicos tomados literalmente e dão margem ao aparecimento do novo ateísmo, personificado pelo biólogo Richard Dawkins, pelo filósofo Sam Harris e pelo jornalista Christopher Hitchens. A teologia da razão perde sustentação e religião e ciência voltam a ser áreas estranhas.

Na busca por uma situação que acomode as duas partes, teólogos e filósofos pós-modernos procuram definir o papel da religião e encontrar uma forma de lidar com o conceito de Deus. Nesse cenário dois pontos são considerados importantes: o primeiro é o resgate do papel original da religião como um processo por meio do qual as pessoas procuram encontrar um significado em suas vidas, pela prática constante de seus ritos e ensinamentos contidos nas escrituras, como uma forma de enfrentar os sofrimentos e infortúnios da vida; o segundo é admitir que Deus é um conceito transcendente e indefinível sobre o qual nem mesmo a pergunta “Deus existe?” tem significado. Se essas providências vão separar definitivamente a religião da ciência não se sabe. Certamente vão dar mais fôlego à primeira para enfrentar as novas descobertas científicas que virão por aí.

Este texto é uma simplificação grosseira do livro citado, que vale a pena ser lido.

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8 comentários sobre “Razão e fé

  1. Querido Dias

    Creio que dizer que “Deus é um conceito transcendente e indefinível sobre o qual nem mesmo a pergunta “Deus existe?” tem significado.” parece ser bastante apropriado. Os homens só porque descobriram a mecânica da evolução das espécies e um pouco mais sobre os astros já acham que Deus é dispensável. Na minha opinião isso é pura besteira, pois temos aí dois grandes enganos:
    – de um lado, as religiões ao longo do tempo, apresentaram definições a respeito de DEUS que foram talvez adequadas para a época, porém que não resistem a menor análise crítica. Assim, venderam uma imagem pobre e fraca de DEUS. Uma imagem, muitas vezes, errada e truncada.
    – do outro lado, os cientistas, ao fazerem descobertas que iriam contrariar aquelas imagens de DEUS acreditaram ter feito a grande descoberta da ciência: DEUS não existe – ou melhor não precisamos de DEUS para explicar o universo.

    Quando a verdadeira definição de DEUS eu não acredito em nenhuma das que tenho visto, tanto que quando rezo (sim eu rezo e acredito muito nisso) raramente me dirijo a DEUS visto que a minha cabecinha não consegue lidar com isso, assim acabo me dirigindo aos amigos e mentores do plano espiritual. Funciona.

    Quanto as grandes descobertas da ciência que “provaram” a não existência de DEUS, elas são facilmente descartáveis bastando imaginar que DEUS, na sua infinita sabedoria foi muito mais longe do que nós (cabeças de bagre metidos a grandes gênios) podemos hoje visualizar. Por exemplo, a teoria da evolução das espécies não prova nada a respeito da não existência de DEUS pois podemos facilmente imaginar que DEUS planejou tudo isso e muito mais. Para que e por que? Bem isso já são outros quinhentos.

    Na visão espírita existem muitas coisas que me parecem totalmente contraditórias ou sem sentido. Nesses casos, quando não consigo uma explicação que me convença, eu me lembro que sou também um “cabeça de bagre” e guardo a minha dúvida para quando puder conversar com mentes mais esclarecidas.

    Você já assistiu o filme “As mães de Chico Xavier”. Vale a pena.

    Um grande abraço
    Ayrton

    • Caro Ayrton,
      Em vista de nossa conversa anterior, eu achei mesmo que você iria gostar do
      conceito de um Deus transcendental que não temos condições de definir. Você
      tem razão ao afirmar que a definição inadequada de Deus, pelas religiões, é
      um ponto que tem favorecido o ateísmo. Entretanto, nem sempre foi assim e
      pensadores antigos, como Confúcio, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e
      outros, preferiam não definir Deus, simplesmente por achar que isso era
      impossível. É esse conceito que a autora do livro quer resgatar, juntamente
      com as práticas religiosas do exercício constante da oração, da meditação e
      outros rituais e, em especial, a prática do bem ao próximo (chamada por
      Confúcio de “regra de ouro”). Isso pode levar o indivíduo a experimentar o
      estado de graça, que talvez seja a presença de Deus. Acredito nisso, embora
      eu nunca tenha tido essa experiência porque não sou um religioso praticante.
      A prática do espiritismo talvez tenha muito a ver com isso. Entretanto,
      tenho dúvidas se essa experiência pode ser conduzida coletivamente, como é
      comum no espiritismo, e se o estado de graça, nesse caso, seria ter contato
      com espíritos de pessoas falecidas. Mas acho que estou influenciado por
      experiências ditas “espíritas” e que se mostraram fraudes grosseiras e, como
      se sabe, charlatães existem em qualquer religião. De qualquer modo, o
      assunto é transcendental e é compreensível que a nossa pobre cabeça não
      tenha condições de decifrá-lo. Aí que entra a fé. Vou assistir ao filme que
      você indicou.
      Um grande abraço.
      Dias

  2. Caco, muito boa sua síntese sobre razão e fé (The case for God). Ambos os termos são produtos do homem e portanto sempre serão passíveis de tensões: aproximações e distanciamentos. O que melhor convier na ocasião é o que vale. A definição que mais me agradou foi a de um poeta e músico (Raul Seixas): “Deus é aquilo que me falta para compreender o que ainda não compreendo”. A definição sobre o que é Deus nunca caberá aos homens. Portanto é prudente equilibrar nossas vidas entre a´fé e a razão.

  3. Caro Oscar
    Como você bem sabe, as religiões, mais especificamente a Igreja, foram responsáveis por séculos de estagnacão científica. As religiões, por razões óbvias, sobrevivem onde reinam o mistério, o medo e a ignorância. Realmente, ciência e religião deveriam cada uma, atuar em seu campo específico, mas a religião depende da ciência, cada vez mais, na medida em que o desenvolvimento científico se impõe de forma inquestionável e os mistérios da natureza deixam de sê-lo. Permitir que a razão ceda lugar à especulações de fundo religioso e filosófico, levaram grandes cientístas à erros comprometedores, caso de Einstein, que introduziu em sua teoria, a constante cosmológica, de forma a tornar aquela, compatível com um universo eterno. Conforme comentou, acho estranho também, que Newton não se tenha questionado qual a razão de Deus necessitar da teoria da gravitação, se o mais difícil Ele já tinha feito. Lemaître, pelo contrário, sacerdote e cosmólogo, um dos criadores da teoria hoje vigente da criação do universo, sabia operar de forma independente nos dois campos. Acho que, hoje, a religião poderia colaborar nas questões que envolvam a ética e a moral, nos procedimentos que usam tecnologias consideradas não naturais nos seres humanos.
    As religiões encontram-se em um grande dilema: ou acompanham a avanço da ciência e com isso obrigam-se a rever certos dogmas ou então tentam manter as doutrinas envoltas no mais profundo mistério e procurar seguidores onde a cultura ainda não se fez de todo presente. Toda essa discussão, no entanto, tem solução no próprio indivíduo para o qual o problema existe. Se ele deseja uma resposta confortadora, que o ampare nas suas dúvidas e incertezas, deve sem dúvida, recorrer à religião e fazer bom uso de cada doutrina. Os outros, com um pé atrás, devem esperar para ver no que vai dar.
    De qualquer forma há um limite para tudo. Podemos explicar a natureza de forma completa, até o instante zero da criação. Mas, e antes deste instante? O que existia antes da criação deste universo? Jamais saberemos, por certo. Essa questão, só Ele explica.
    Preparei um resumo sobre o significado da ciência, que apresentei a alguns “mártires” que se propuseram a ouvir. Este texto, encontra-se como parte do prefácio do livro Física Conceitual, do qual reproduzo o item que envolve arte, ciência e religiao e creio que, pertinente ao tema que você propôs.

    Abraços,
    José

    CIÊNCIA, ARTE E RELIGIÃO. A ARTE DIZ RESPEITO À BELEZA DO COSMO. A CIÊNCIA DIZ RESPEITO À ORDEM DO COSMO. A RELIGIÃO DIZ RESPEITO AO SENTIDO DO COSMO. A PROCURA DO CONHECIMENTO E DE SEU SIGNIFICADO NO MUNDO TOMA DIFERENTES FORMAS: A CIÊNCIA, A ARTE E A RELIGIÃO. EMBORA AS TRES FORMAS EXISTISSEM HÁ MILHARES DE ANOS, AS TRADIÇÕES CIENTÍFICAS SÃO RELATIVAMENTE RECENTES. MAIS IMPORTANTE: OS DOMÍNIOS DA CIÊNCIA, DA ARTE E DA RELIGIÃO SÃO DIFERENTES, EMBORA EXISTA, FREQÜENTEMENTE, UMA SUPERPOSIÇÃO ENTRE ELAS. A CIÊNCIA OBJETIVA DESCOBRIR E REGISTRAR FENÔMENOS NATURAIS; AS ARTES DIZEM RESPEITO À INTERPRETAÇÃO PESSOAL E À EXPRESSÃO CRIATIVA E A RELIGIÃO VE A ORIGEM, PROPÓSITO E SIGNIFICADO DE TUDO. CIÊNCIA E RELIGIÃO TÊM SIMILARIDADES, MAS SÃO BÁSICAMENTE DIFERENTES, PRINCIPALMENTE PORQUE SEUS DOMÍNIOS SÃO DISTINTOS: À CIÊNCIA DIZ RESPEITO AO REINO FÍSICO; A RELIGIÃO, AO REINO ESPIRITUAL. O DOMÍNIO DA CIÊNCIA É A ORDEM NATURAL E O DOMÍNIO DA RELIGIÃO É O SENTIDO DA NATUREZA. CRENCAS E PRÁTICAS RELIGIOSAS ENVOLVEM FÉ E REVÊRENCIA A UM SER SUPREMO. A RELIGIÃO OPERA COM AS PARTES DA EXPERIENCIA HUMANA QUE NÃO PODEM SER REPRODUZIDAS POR EXPERIMENTOS CONTROLADOS. MUITAS PESSOAS FICAM PREOCUPAS POR NÃO CONHECEREM AS RESPOSTAS PARA QUESTÕES RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS. ALGUMAS EVITAM A INCERTEZA, ADOTANDO, SEM CRÍTICAR, QUALQUER RESPOSTA CONFORTADORA. PARA ESSAS PESSOAS, TALVEZ A RESPOSTA MAIS CONFORTADORA VENHA DA PRÓPRIA CIÊNCIA, POR ADMITIR A INCERTEZA COMO ACEITÁVEL. A CIÊNCIA ACEITA A TEORIA DE QUE NÃO É POSSIVEL CONHECER SIMULTÂNEAMENTE A POSIÇÃO E O MOMENTO DE UM ELETRON NO ÁTOMO. A INCERTEZA FAZ PARTE DO PROCESSO CIENTÍFICO. É ACEITAVEL NÃO SABER AS RESPOSTAS PARA QUESTÕES FUNDAMENTAIS. NÓS SABEMOS ALGUMA COISA A RESPEITO DE ONDE ESTAMOS, MAS NADA SABEMOS REALMENTE SOBRE O PORQUÊ DE ESTARMOS AQUI. TUDO BEM SE NÃO SOUBERMOS AS RESPOSTAS A ESSAS QUESTÕES RELIGIOSAS. ENTRE ESCOLHER UMA MENTE FECHADA E POSSUIDORA DE RESPOSTAS CONFORTANTES E UMA MENTE ABERTA E EXPLORADORA, SEM POSSUIR AS RESPOSTAS, A MAIORIA DOS CIENTÍSTAS OPTA PELA SEGUNDA ATITUDE. ELES GERALMENTE SE SENTEM CONFORTÁVEIS EM NÃO SABER.

    • Caro José,
      Seus comentários enriquecem a discussão. Minha modesta opinião é que , assim como em outros assuntos, também neste é mais fácil falar do que fazer. Somos seres racionais e emotivos e não sabemos bem como separar as coisas em nossas cabeças. Ora nos entusiasmamos com a ordem do universo (ciência), ora com a sua beleza (arte) e outras vezes com o místico e transcendental (religião). O importante é que esses momentos compensam os outros da dura realidade.
      Um grande abraço.
      Oscar

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