Viver é preciso, sentir medo não é preciso

         O medo é um sentimento complexo e contraditório. Ele vem nas versões “inato” e “adquirido por experiência”. O medo inato é, por exemplo, aquele que paralisa o indivíduo que se vê a beira de um precipício. O adquirido é, por exemplo, aquele que empalidece a pessoa que vê um cachorro, depois de ter sido mordida por um. A sensação, em qualquer caso, é de total desconforto. Em ambas as versões, o medo tem um bom propósito: proteger o indivíduo em situações de ameaça ou perigo.

         Se o assunto terminasse aqui, já teria dado mostra suficiente de um conflito claro. Se por um lado o medo nos protege, por outro, ele nos incomoda, para dizer o mínimo. Poderíamos ter sido dotados de um sistema de alerta que apenas soasse um discreto alarme interno ou, numa voz suave, nos dissesse: “Aquele cão não parece ser bravo, mas, em todo caso, procure não chegar muito perto dele”. Infelizmente, é muito provável que com um tal sistema não estaríamos hoje aqui. Se o mecanismo do medo é o melhor que poderia ter sido inventado, isto é discutível; mas que ele funciona, não há dúvidas.

         O medo inato nos foi dado como herança e não há outra saída senão aceitá-lo. O medo adquirido está ligado à nossa experiência e aqueles com sorte podem não ter adquirido nenhum, o que é pouco provável. Ele está associado a uma certa subjetividade. Pessoas diferentes associam risco a situações diferentes e, portanto, sentem medo em situações diferentes. Pessoas saudáveis podem associar risco a situações banais e ter inúmeras oportunidades de sentir medo. Outras não vêem riscos em quase nada e, portanto, raramente sentem medo. Um artigo de fevereiro passado, na revista Scientific American, procura explicar porque as pessoas sentem medos irracionais (leia aqui).

         O problema se agrava quando o organismo não consegue controlar o mecanismo do medo, caracterizando uma patologia. O medo não é mais um aliado, mas um inimigo. Quando é constante, mesmo que não caracterize uma síndrome (um caso extremo), ele sufoca, incapacita a pessoa e tira-lhe o prazer de viver. Inexplicavelmente, o indivíduo, a todo instante, acha que algo trágico está para acontecer. É um desperdício da vida que deveria ser preservada por esse mesmo mecanismo do medo. É uma disfunção tão séria que se alimenta dela própria para produzir um outro sintoma que é o medo de ter medo (leia mais aqui).

         O sentimento do medo (inato ou adquirido) é controlado, no cérebro, por um par de pequenas estruturas chamadas amígdalas, que têm como coadjuvante no processo uma região do córtex chamada de pré-límbico. Pesquisas recentes têm tido sucesso na compreensão do funcionamento conjunto dessas regiões e abrem novas perspectivas para o tratamento de alguns tipos de disfunção. Interessante é a perspectiva de apagar certos medos induzidos por experiências traumáticas, por meio de procedimentos não invasivos que estão descritos no artigo “Can we control our fears?” (Podemos controlar nossos medos?).

         A seleção natural moldou o ser humano e ainda continua a fazê-lo. Não somos um produto acabado e sabemos, hoje, que a evolução do nosso organismo seguiu um caminho tortuoso deixando pistas de um projeto que foi se modificando ao longo do tempo, carregando imperfeições que ainda hoje são evidentes (o livro “O maior espetáculo da Terra”, de Richard Dawkins, Companhia das Letras, trata deste assunto). As imperfeições poderão ser corrigidas, senão pela natureza, pela intervenção do próprio homem. Essa, que diz respeito ao mecanismo do medo, é uma que não deixaria saudade em ninguém. Afinal todos gostariam que o trocadilho do título – em referência a um verso de Fernando Pessoa – pudesse celebrar uma nova realidade: “viver é preciso, sentir medo não é preciso”.

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