O infinito em incontáveis versões

         Li hoje três textos que tratam do conceito de infinito. O primeiro foi uma notícia do The Washington Post que divulga uma teoria segundo a qual o nosso universo pode estar dentro de um buraco negro (leia aqui). O segundo texto é de autoria do físico Marcelo Gleiser, com o título “Infinity, the electron and other inventions” (Infinito, o elétron e outras invenções). O terceiro é um ensaio escrito pelo especialista em educação, meu amigo Nilson José Machado, no seu site “Mil toques e uma idéia”, intitulado “Justiça e infinito”.

         O primeiro traz a noção de infinito implícita na ideia de que se o nosso universo está dentro de um buraco negro, então os buracos negros que existem em nosso universo podem conter outros universos e assim sucessivamente, ad infinitum. O segundo trata dos mundos macroscópico e microscópico onde a noção de infinito está obrigatoriamente presente. O terceiro lembra que a vida finita de um indivíduo está sujeita a injustiças e que a garantia de justiça exige a perspectiva de infinito, de eternidade.

         Os textos não foram publicados simultaneamente, mas a facilidade com que foram encontrados (sem nenhuma busca no Google) é uma boa indicação de que o conceito de infinito é muito discutido na mídia. O termo infinito vem do latim infinitas (wikipédia), que significa ilimitado, sem fronteiras. A ciência, em especial a matemática, é pródiga de situações onde esse conceito aparece. Em geral ele caracteriza uma situação extrema e inatingível (um ponto limite), só concebível em hipótese, onde uma determinada conclusão pode ser validada. Uma frase de domínio popular ilustra bem essa ideia: duas retas paralelas só se encontram no infinito.

         A religião também utiliza o adjetivo infinito para qualificar os atributos de Deus, como a bondade, a sabedoria, o amor, e para, implicitamente, definir a eternidade após a morte. Em nosso quotidiano também empregamos esse conceito quando olhamos para o céu e imaginamos a imensidão do universo, ou quando pensamos no passado ou no futuro longínquos.

         Infinito é um conceito bastante abstrato mas muito presente na mente dos indivíduos. Por que temos essa atração pelo infinito? Quando olhamos para o céu, por que preferimos imaginar um universo infinito ao invés de finito? Por que é mais fácil imaginar que o tempo sempre existiu e nunca terá um fim? Por que temos a sensação de que o progresso é irreversível e o futuro aponta para um aprimoramento social e tecnológico ilimitado? (Nossas visões de apocalipse, embora muitas vezes estimuladas por ameaças reais, parecem ser apenas uma simples reação a essa ideia fixa de continuidade.)

         Não sei responder a essas perguntas, mas desconfio que as respostas têm a ver com algumas peculiaridades da natureza humana. Temos um forte anseio por liberdade e um repúdio a fronteiras e confinamento. A seleção natural nos dotou de uma especial capacidade para sobreviver e vencer obstáculos para perenizar a espécie. O progresso, portanto, é bem-vindo; a estagnação e o retrocesso não. O nosso desejo de imortalidade é um subproduto das forças naturais que nos moldaram como somos. Com todas essas características só poderíamos acabar atraídos por tudo que é eterno e que não tem fronteiras, ou seja, o infinito.

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