Caprica

         A TV paga está exibindo uma série de ficção científica chamada Caprica. Ela se passa num futuro distante, num local com o nome da série, e o tema principal é inteligência artificial (IA). No ambiente de Caprica as pessoas utilizam, como entretenimento, um dispositivo que as permite participar de uma história virtual onde os personagens são “avatares” (representações) das pessoas reais. Uma empresa conseguiu, finalmente, fazer com que um avatar ganhasse vida própria e isso parece ter sido o último passo para criar a IA.

         A criação da inteligência artificial é uma meta que vem sendo perseguida há muito tempo pela tecnologia. Os desenvolvimentos tecnológicos proliferam, tanto na área de hardware como de software. No Japão já se constroem robôs com várias habilidades que podem ser úteis nas tarefas diárias. Na área cognitiva, um software já derrotou o campeão mundial de xadrez e outro já consegue participar de programas de perguntas e respostas com desempenho muito mais alto que a média dos indivíduos (leia mais aqui). Estamos próximos de criar a IA? As respostas a essa pergunta são díspares. Uns acham que é questão de décadas, outros acham que demorará muito mais e outros, mais céticos, acham que nunca conseguiremos.

         A diferença de opiniões pode significar que as pessoas têm diferentes entendimentos sobre o que é IA. Na wikipedia, IA é definida como a capacidade de um sistema perceber o seu ambiente e tomar decisões que maximizem as suas chances de sucesso (ou, então, a área da Ciência da Computação que visa a produzir tais sistemas). É uma definição um tanto vaga, mas que certamente lembra muito a mente humana, pois nós somos um exemplo de tal sistema. Os mais céticos – aqueles que acham que nunca criaremos uma inteligência artificial – possivelmente, devem estar fazendo a analogia com a mente humana. Isto não quer dizer que os mais otimistas não estejam. Afinal, o assunto fica muito mais instigante quando pensamos em IA como um robô com capacidade para pensar e sentir como humanos.

         Se um dia esse robô vier a existir, seria curioso pensar no modo como os seres humanos o encararão. Será que com a mesma empatia que encaram outros seres humanos, ou como um simples objeto inanimado que faz truques? Experiências com robôs que simulam pequenos animais mostram que as crianças podem criar afeição a eles. Mas isto seria o mesmo que considerá-los vivos? É difícil saber. No caso do robô inteligente, o seu comportamento será tão convincente que nos fará esquecer que é um simples computador seguindo as regras de um programa que o homem introduziu em seu cérebro? Como poderemos saber o que se passa em sua mente artificial? Como ele pensa? Como ele sente? Como ele nos vê e o que pensa de nós?

         Poderíamos achar que os criadores da IA saberiam responder a essas perguntas com facilidade, pois, afinal, foram eles os projetistas da criatura. Mas uma outra questão se impõe. Conjectura-se, hoje, que a mente humana não segue um procedimento algorítmico como um programa de computador, embora ainda não se saiba com precisão que outro tipo de procedimento ela usa. Se a IA pretende simular a mente, provavelmente um novo tipo de procedimento operacional não convencional terá que ser utilizado para a sua criação. Esse procedimento poderá ser tão complexo que não será criado apenas por um cientista, ou uma equipe, em uma única etapa. Provavelmente, ele será aperfeiçoado progressivamente por equipes sucessivas de cientistas até atingir um estado operacional satisfatório. Nessa hora, não haverá uma única pessoa que conheça todo o processo e que possa entender exatamente o que se passa na mente artificial. A criatura terá, então, se tornado enigmática até para os seus criadores.

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2 comentários sobre “Caprica

  1. Dúvidas que me angustiam: Se para ser IA, dentre outras coisas, há que se ter livre arbítrio, aspectos emocionais serão considerados nas tomadas de decisões? Em caso negativo, haverá algum risco de embate entre IN e IA ou, entre a razão e a emoção ou, em última análise, entre humanos e máquinas?

    • Edinaldo – Suas dúvidas também são minhas. Ninguém sabe exatamente, hoje, até onde a IA pode chegar na simulação da mente humana, simplesmente porque ninguém ainda sabe como esta funciona. Nem mesmo sei se este é o objetivo da IA. Mas vamos ficar na área da ficção e supor que algum dia o homem conseguirá construir uma máquina consciente. Por precaução, essa máquina deveria ter algumas restrições – do tipo das leis da robótica, do Isaac Asimov – para que ela não seja uma ameaça aos seres humanos, visto que ela seria superior aos humanos em muitos aspectos. Aí surge um problema: uma consciência plena seria compatível com essa limitação de liberdade? Estaríamos reproduzindo a época da escravatura? Como nas histórias do Asimov, as máquinas entrariam em pane se pensassem muito nessa sua condição. Acho que seria melhor ficarmos só com com os robôs-aspiradores de pó e assemelhados. Abs. Caco

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