Ah, se o tempo parasse!

         Quem já não desejou isso ao passar por um momento de extrema felicidade ou sentir que a juventude está terminando? É claro que esse desejo não pode ser levado ao pé da letra porque o que se quer de fato é que a experiência se prolongue e não que o tempo pare. Parar o tempo seria congelar o momento, como dar uma pausa num filme que se está assistindo. Nada estaria acontecendo, a felicidade não poderia mais estar sendo sentida. A própria vida estaria terminada.

         A frase acima nada tem a ver com o sentido físico de parar o tempo e, no entanto, é deste que eu quero falar aqui. Os problemas do dia-a-dia não nos dão muitas oportunidades de pensar em questões filosóficas como essa e outras que não têm uma ligação direta com nossos interesses imediatos. Entretanto, suponho que o leitor deste blog tenha resolvido dar uma pausa em suas preocupações e gostará de pensar por alguns minutos sobre o tempo e suas peculiaridades. Em especial, de pensar nas perguntas: O tempo teve um início? Ele terá um fim?

         É intuitivo pensar que o tempo sempre existiu e existirá para sempre. É difícil imaginar outra situação. Isso vale até para os cristãos – e adeptos de outras religiões que têm dogmas semelhantes – que foram ensinados que o tempo começou a contar quando Deus criou o mundo e terminará no dia do Juízo Final. Ainda que tenhamos fé, a nossa experiência terrena não nos permite imaginar o que existia antes do início e o que virá após o fim. Por outro lado, os cientistas, religiosos ou não, querem dar uma explicação para as respostas às duas perguntas acima, quaisquer que sejam elas. E o que se verifica é que, de fato, não há consenso nas respostas. Alguns filósofos dizem que esse problema é uma antinomia, isto é, há razões para concluir tanto num sentido quanto no outro. Para eles, o fim do tempo é, ao mesmo tempo (sem trocadilho), impossível e inevitável.

         Segundo a teoria da relatividade geral de Einstein, o passar do tempo – assim como a forma do espaço – está ligado à força da gravidade que os corpos exercem entre si. Ele passa mais devagar à medida que os objetos (ou pessoas) estão submetidos a uma maior atração gravitacional. No limite, no centro de um buraco negro, em que a força de gravidade é infinita, o tempo pára. Essa situação foi chamada de singularidade e muitos cientistas acham que ela é decorrente de uma incompletude da teoria de Einstein, que não se aplica a essa situação extrema. Outras teorias teriam que ser formuladas para explicar que o tempo pode parar.

         Entre essas teorias uma baseia-se na comparação do tempo com a vida. (Mais informações podem ser obtidas aqui.) Assim como a vida emergiu de um processo envolvendo a matéria inanimada, o tempo surgiu de um processo envolvendo algo (matéria, energia?) atemporal. Da mesma forma que a vida pode se degradar e terminar, assim também pode acontecer com o tempo, num processo gradativo.

         O universo em um processo contínuo de expansão acabaria por atingir um estado de completo caos (ausência completa de ordem), onde as mudanças não mais poderiam acontecer. Mas mudanças estão intimamente relacionadas com tempo e esse processo acabaria por extinguir todas as suas propriedades. Não haveria mais a unidirecionalidade que nos faz perceber o tempo fluir do passado para o futuro; eventos não teriam duração e a causalidade simplesmente desapareceria.

         Nos anos 80, cientistas procuraram explicar o Big Bang como o momento em que o tempo se separou das outras três dimensões espaciais. Essa ideia inspirou uma teoria mais recente que acaba por selar a sorte do tempo: uma vez destituído de suas propriedades, o tempo acabaria se transformando em uma quarta dimensão de espaço. Tudo voltaria ao que era antes.

         Nas palavras do autor do texto do link acima, “o final do tempo pode ser algo que podemos imaginar, mas que ninguém jamais poderá experimentar diretamente, assim como nós não podemos estar conscientes no momento de nossa morte”.

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3 comentários sobre “Ah, se o tempo parasse!

  1. Eu penso, meu caro Caco, que todos nós temos, na verdade, saudade de nós próprios. Nós não temos saudade dos outros, de outros tempos, de outras coisas. Nós queremos ser o que fomos.
    Na minha santa engenuidade e falta de conhecimento, eu penso sempre que tudo depende do tempo. O mesmo tempo que constrói, destrói.

  2. A conclusão dos cientistas parte da eleição da premissa. Se o tempo for a alteração da natureza mensurável (premissa), logo, quando a natureza deixar de se mover, não haverá tempo. Em algum comentário que aqui já fiz, lembro-me que considerei que o tempo que nós utilizamos como padrão é o ritmo de alteração de um átomo específico.
    Agora, se alterarmos a premissa, acho que a conclusão talvez não se aplique. Se o tempo for uma dimensão e estiver intrinsicamente ligado à matéria (gravidade), acredito que haverá tempo enquanto houver matéria, sendo ela estática ou não. Se a matéria estiver estática, a única coisa que ocorrerá é que não testemunharemos isso.

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